Sozinha no Egito: mulheres contam suas experiências

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Atualizado em 12 de Janeiro de 2018

Quando estive no Egito, ouvi muitos rumores de que o país não é receptivo a mulheres desacompanhadas. Embora, oficialmente, nada as impeça de viajar pela terra dos faraós, os relatos que ouvi e que li na internet mostram que viajar sozinha no Egito pode ser um desafio maior do que, talvez, você imagine.

Mas, calma. Antes de se desesperar, leia os depoimentos de algumas viajantes que encararam o preconceito, o medo e fizeram essa viagem desacompanhadas, retornando seguras e cheias de histórias para contar para o resto da vida.

O assédio de todo dia

Dandara Rocha é publicitária, tem 25 anos e fez intercâmbio no Egito por um ano. Durante esse tempo, ela morou em Alexandria, e viajou bastante pelo país, passando por Aswan, Luxor e Abu Simbel, já na fronteira com o Sudão.

O desconforto era frequente durante todo tempo que morei no Egito. Até o meu último dia, não houve uma vez que andei nas ruas sem ser assediada. Depois que descobri que eles sentem muito medo quando uma mulher os enfrenta e os responde à altura, resolvi não temê-los tanto mais”, relata Dandara.

Sozinha no Egito: mulheres contam suas experiências

Dandara, no Rio Nilo: não houve um dia que ela saísse na rua sem sofrer assédio.

Ela conta, ainda, que, por diversos momentos, se sentiu insegura no país, mas por motivos bem diferentes. “A segurança nas ruas é bem maior do que aqui (no Brasil). Posso andar com celular na mão e dinheiro no bolso sem me preocupar. Porém, o assédio é frequente e me deixava, por vezes, insegura. Até que comecei a enfrentar os assediadores”, lembra.

A professora Luana Dias viajou com o marido e conta que, mesmo acompanhada, passou por situações constrangedoras. Ela é uma viajante experiente e já esteve em outros países africanos, como Tunísia e Marrocos, mas diz que nunca viveu nada semelhante ao que passou na imigração egípcia.

Ao chegar, fui separada do meu marido. Eu viajo, na maioria das vezes, com bagagem de mão e, dessa vez, não foi diferente. Estava com tudo certo: visto, passaporte com dez anos de validade, voucher do hotel, dinheiro, cartão. Só que eles invocaram com a minha mala”, conta.

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Luana, mesmo acompanhada do marido, passou por situações constrangedoras.

Luana relata que quatro oficiais da imigração mexeram em sua mala e, falando em árabe, pareciam fazer piadas entre si. “Eles riam, mexiam nas minhas coisas, faziam uma ou outra pergunta em um inglês carregado de sotaque, zombavam da minha nacionalidade. Eu tentei manter a calma e a seriedade nas minhas respostas. Depois de um tempo, fui liberada”, conta.

Mais tarde, Luana ficou sabendo que esta é uma prática comum da imigração egípcia.

Luciany Loureiro é publicitária, mora em Vitória e passou dois meses no país. Ela não indica uma viagem sozinha no Egito, mas ressalta que isso depende do perfil de cada viajante. Luciany ainda lembra que, quando precisava sair sozinha e até mesmo acompanhada de amigas, passou por vários apuros.

“Eu já ouvi gritos de mulher dentro de carro. Não podemos deixar que ninguém abra a porta do elevador se só tiver mulheres. Pegar ônibus é perigoso, táxi também. Então, ou você tem um homem acompanhando, ou vai com medo mesmo”, alerta a viajante.

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Para Luciany, as coisas começaram a mudar quando ela passou a reagir ao assédio.

Um desses episódios de assédio, Luciany faz questão de compartilhar. “Eu e minhas amigas fomos perseguidas na rua de casa. Tivemos que correr e gritar, pois mesmo falando que não era para encostar na gente o cara insistia. O máximo que ele conseguiu foi passar a mão no meu cabelo”, conta.

A jornalista Thatiane Ferrari, de São Paulo, passou dez dias no Egito em 2015. Ela visitou a capital, Cairo, e cidades do interior, e conta que não se sentiu insegura, porque contratou uma agência de turismo para alguns passeios e arrumou uma companhia para andar pelo Cairo.

A agência me encaminhava aos trens nos longos trajetos. Eles me levavam até o vagão do trem, depois eu seguia sozinha. E, como fiquei hospedada em hostel, eu consegui arrumar um amigo no primeiro dia de viagem”, explica.

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Tathiane contratou uma agência egípcia e teve uma viagem mais tranquila.

Ela ainda conta outra sorte que teve na viagem. “Como fiz cruzeiro pelo Rio Nilo, na hora das refeições, eles juntavam os viajantes solitários na mesma mesa, o que acabou facilitando criar amizades durante o trajeto. Éramos cinco: um chinês, um equatoriano, um romeno, um argentino e eu, brasileira, e única mulher. Tive muita sorte de fazer essas amizades. Mantenho contato com cada um deles até hoje”, diz Thatiane, que afirma não ter recebido tratamento diferente por ser mulher em nenhum momento da viagem.

Já a jornalista Maria Garcia, que escreve o blog Vagamundo teve uma experiência completamente diferente.

Sempre me senti muito mais assediada em países latinos, onde a sexualidade é muito explorada. Caminhar em qualquer rua do Rio de Janeiro, Buenos Aires, Santo Domingo, é muito mais agressivo para as mulheres, do que pelo Egito.  Não senti meu espaço invadido em nenhum momento, ninguém tentou me apalpar ou mexer comigo. Tem olhares curiosos sim, da mesma forma que eu tenho ao olhar para a cultura deles, pelo choque, pelas diferenças, então existe a curiosidade, mas em nenhum momento me senti ameaçada”, pondera.

Sozinha no Egito: mulheres contam suas experiências

Maria diz que se sentiu mais segura no Egito do que em países latinos.

O problema não é a roupa

Segundo as leis do Islamismo, não é ideal que homens e mulheres mostrem seus corpos publicamente. Por isso, Maria revela alguns truques para você não passar apuros.

“Os homens usam as túnicas e as mulheres, lenços. Por isso, é necessário usar uma blusa que tampe os ombros, e  é sempre melhor que vá até abaixo da bunda, um lenço também é legal para ajudar a tampar o colo e ombro. Também não é recomendado usar roupas muito justas. Normalmente faz muito calor, eu indicaria usar chapéu”, indica.

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Nas cidades de praia, o traje é mais liberal, como mostra Luciany e suas amigas.

Dandara sempre usou roupas que considerava apropriadas, como calça jeans, camiseta e um lenço solto sob os ombros, tapando metade dos braços, mas nem isso a impedia de ser vista como uma presa.

Uma vez, eu voltava do trabalho, quando notei um homem me seguindo. Como estava perto de casa, tentei despistá-lo para que ele não soubesse onde morava. Atravessei a mesma avenida diversas vezes, pois meu prédio era bem próximo, e nada do assediador desistir. O olhar dele sobre mim era amedrontador, muito estranho mesmo. Até hoje, quando me lembro, sinto certa aflição”, diz a publicitária.

Quando notou que o homem não desistiria, Dandara fingiu que falava com a polícia ao telefone denunciando que estava sendo perseguida.

O susto foi tão grande, que ele se grudou na primeira van que passou na rua para fugir de mim. Cheguei em casa suando frio e sentindo muita raiva do assédio diário e cada vez pior”, desabafa.

O relato de Luana é parecido. Ela conta que o assédio nas ruas era frequente, mesmo vestida de forma discreta.

Eu sempre andava de roupas cobertas e lenço na cabeça. Apenas nos restaurantes do Cairo ou no nosso hotel, em Gizé, que eu ousava colocar um traje mais ‘ocidental’. Definitivamente, não é uma viagem que eu faria sozinha. Acho importante ter uma presença masculina para dar segurança nos deslocamentos. Infelizmente, o Egito ainda é um país que restringe a liberdade da mulher”, alerta Luana.

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Luana preferiu aderir a moda local e evitou expor o corpo.

É essencial estudar os costumes locais e se adaptar à cultura em que você está se inserindo antes de partir para uma viagem sozinha no Egito. Essa é a dica da Tathiane, que explica que adaptou seu estilo, não só o de roupa, mas o comportamental.

Não usei maquiagem em nenhum momento e também não fui com as unhas pintadas. Usei brincos pequenos e óculos escuros. Em relação às vestimentas, na parte de baixo, calça e saia longa, e, na parte de cima, camisas e blusas de manga longa. Dentro das mesquitas, véu”, aconselha.

Sozinha no Egito: mulheres contam suas experiências

A jornalista Thatiane também optou por se vestir de forma discreta.

Desconforto nos passeios

Muitas mulheres contam, ainda, que se sentem desconfortáveis nos passeios. Isso acontece no transporte público, na fila para comprar ingressos, no táxi e até mesmo nos monumentos.

Nos passeios, por ser mulher, já ouvi desde piadas me julgando como burra ou trapaceira, quando tentava negociar preços no mercado, por exemplo, até cantadas bem inoportunas de vendedores e guias turísticos. Eu sofri isso várias vezes, não só por ser mulher, mas, também, por ser estrangeira. Pontos e cidades turísticas são sempre locais onde o assédio acontecerá com maior frequência, pois alguns egípcios vão lá apenas para olhar e assediar estrangeiras, como um hobby mesmo”, conta Dandara.

Sozinha no Egito: mulheres contam suas experiências

Até nos passeios há possibilidades de assédio e golpes contra quem viaja sozinha no Egito.

Outra coisa que você vai perceber, estando sozinha ou não, sendo mulher ou não, é que os turistas são vistos quase como celebridades por algumas pessoas e é comum pedirem para tirar foto com você.

Fui parada no Cairo diversas vezes por pessoas pedindo para tirar fotos e em Aswan, dentro do Nubian Museum fui seguida por um grupo de garotos adolescentes que queriam me fotografar. O segurança do local percebeu e chamou a atenção dos meninos, que logo cessaram”, lembra Thatiane.

Além do assédio, mulheres que encaram uma viagem sozinha no Egito relataram ser vítimas de golpes e de preços injustos. Vistas como mais frágeis, golpistas aproveitam para meter a mão no bolso de mulheres desacompanhadas.

Sozinha no Egito: mulheres contam suas experiências

Maria faz uma pausa para fotografar com garotas egípcias.

Sozinha no Egito

Sempre que alguma leitora me pergunta sobre viajar para o Egito desacompanhada, eu não indico. Para ser honesto, eu não sei se as coisas são tão simples assim, pois cada um deve ter sua experiência. Mas, o mais importante, neste caso, é saber dos riscos reais da escolha de viajar sozinha.

Thahiane conta que não encontrou nenhuma mulher viajando sozinha no Egito, e, também, nenhum grupo só de garotas viajantes.

Eu recomendo a viagem, mas com algumas ressalvas. Digo que viajar sozinha no Egito não é para novata. É um destino que exige muito estudo prévio de história, de costumes, de religião. O assédio é grande e em diversos níveis. Eles também são comerciantes natos e até para comprar uma simples água, muitas vezes, é preciso negociar. O calor, a caos da metrópole, as tempestades de areia: tudo isso traz tensão”, indica Thatiane.

Sozinha no Egito: mulheres contam suas experiências

A única regra para viajar sozinha no Egito é estar preparada para o choque cultural.

Se a mulher tem facilidade de fazer amizade, e sabe se virar facilmente, dá pra enfrentar sim. Pra mim, valeu a experiência por ser uma cultura totalmente diferente, mas voltaria só para visitar, nunca para morar sozinha. Dá pra se divertir muito no país, vale muito a visita, pois tem lugares maravilhosos que não se encontram em nenhum outro lugar, e se buscar um jeito de estar seguro, ou regiões mais seguras, dá pra ir tranquilamente”, estimula Luciany.

Clarissa Donda, que escreve o blog Dondeando por Aí, esteve no Egito com um grupo de conhecidos, mas passou boa parte do tempo sozinha. Depois da viagem, ela escreveu:

“Minha impressão do Egito é que ele não é esse absurdo de perigo todo, mas também não é amigável para mulheres viajando sozinhas. Isso significa que as pessoas não saem estuprando, batendo e atacando as mulheres na rua, como eu já ouvi. Mas tenha em mente que você, como estrangeira e mulher ocidental, vai chamar a atenção – e talvez vá haver alguns momentos em que isso acontecerá de uma forma invasiva, que você não vai gostar”.

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SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

2 Comentários

  1. Olá, Altier.

    Obrigada mesmo pela história do Egito com relatos de mulheres que tiveram experiências lá. Foi muito importante para mim.
    Vou deixar como uma dos últimos roteiros… rs.
    Como viajo sempre sozinha nos últimos 28 anos, acho sensato fazer outras rotas, pois nosso mundo é grande mesmo… rs.
    Cada dica sua é como se tivesse conhecido um pouco os lugares, pois realmente você é bom contador de histórias (tenho um filho que ensina história numa Universidade Federal na cidade de Petrolina/PE).

    Abraços fraternos em seu coração.

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