A vida em Cuba: como o contexto político do país afeta sua viagem

Atualizado em 1 de novembro de 2022 – 6 min de leitura

A vida em Cuba

Entender a vida em Cuba não será tão fácil quanto você imagina. O país, que viveu sob o domínio espanhol durante séculos, foi um dos maiores produtores de cana-de-açúcar do mundo.

Em sua maioria, o trabalho era desenvolvido por negros escravizados, que chegavam sem parar aos portos do país. Só para você ter uma ideia, em 1840, já existiam mais de 400 mil africanos em Cuba. Isso mudou, para sempre, as características do país.

Neste artigo, eu vou explicar sobre:

Conflitos com os Estados Unidos

Os conflitos envolvendo Cuba e Estados Unidos não são recentes. O açúcar cubano era tão valorizado que os norte-americanos tentaram, por duas vezes, comprar a ilha da Espanha.

Mais tarde, depois da Guerra pela Independência, que começou em 1868 e durou dez anos, começaram as manifestações cubanas para que a ilha fosse anexada aos Estados Unidos.

Entretanto, José Martí, o líder da independência, depois de viver por 15 anos em Nova Iorque, estava convicto de que essa não seria a melhor saída para Cuba. Então, com outros companheiros, iniciou os embates que resultaram na libertação do país em 20 de maio de 1902.

Antes, os Estados Unidos já haviam tentado comprar a ilha pela terceira vez. Foi depois que uma de suas embarcações explodiu “misteriosamente” no porto de Havana.

Novas regras

Em 1900, quando era governada por um interventor norte-americano, como previa o tratado de Paris, assinado por Estados Unidos e Espanha, Cuba escreveu sua primeira constituição. Na verdade, não foi bem assim. Naquela época, as tropas americanas ocupavam várias cidades cubanas e a vida em Cuba ficou bem pior.

Isso significa que o governo estadunidense tinha grande influência sobre a ilha. Foi assim que eles incluíram na Carta Magna uma cláusula que garantia aos Estados Unidos o direito de intervir militarmente em Cuba.

A vida em Cuba

Sem muita escolha, Cuba aceitou as novas regras. Logo depois, em 1903, os Estados Unidos tomaram a base naval de Guantánamo. Onde, ainda hoje, mantém uma cadeia para presos acusados de terrorismo.

Desde sua abertura, já passaram pela polêmica prisão de Guantánamo mais de 750 prisioneiros. Esses, sem acusação formal, sem processo constituído e, portanto, sem direito de defesa e julgamento.

Corrupção e revolução

Depois que se tornou independente, Cuba passou a ser governada por uma série de presidentes envolvidos em casos de corrupção. Com uma ou outra exceção, todos esses governos foram muito prejudiciais para o país. Com isso, aos poucos, começou a crescer em sua população o desejo por mudança.

Depois do golpe de estado aplicado por Fulgêncio Batista, em 1933, esse sentimento foi mais fortemente ancorado no Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel Castro. Derrotados em sua primeira investida, o grupo paramilitar persistiu pelo interior do país.

Nessa época, o médico argentino Ernesto Guevara, que ficou mais conhecido como Che Guevara, se uniu ao grupo que tinha, ainda, Raúl Castro, irmão de Fidel e ex-presidente cubano.

Depois de muitos conflitos contra o exército de Batista, a revolução triunfou em 1º de janeiro de 1959, com a tomada de Santiago de Cuba e de Havana, no dia seguinte. Isso mudou a vida em Cuba.

Governo revolucionário

Em seus primeiros anos no poder, Fidel Castro sancionou leis reduzindo o valor dos alugueis, da eletricidade e de outros serviços básicos. Aboliu a discriminação racial e estatizou grandes propriedades rurais que, em sua maioria, pertenciam a empresas americanas.

As principais áreas de investimento eram a saúde e a educação, que, ainda hoje, são modelo para o resto do mundo: Cuba tem uma das melhores taxas de alfabetização do planeta e o serviço de saúde é universalizado e de qualidade – embora os salários dos profissionais sejam baixos.

O desemprego é baixíssimo, mas se sobrevive com pouco e produtos essenciais para uma vida digna, como papel higiênico e sabonete, são racionados. Muitos profissionais, inclusive, precisam fazer uma segunda jornada para garantir uma renda extra.

A vida em Cuba

Mesmo sendo claramente esquerdista, Fidel Castro nunca foi comunista. A opção pelo regime dos soviéticos só foi feita bem depois dele chegar ao poder e, para muitos, foi resultado da falta de opção: com os Estados Unidos apontando para medidas contrárias ao país, Fidel acabou se aproximando da ex-União Soviética que, naquela época, travava uma guerra ideológica com o mundo capitalista.

Como contrapartida, Cuba recebeu investimentos e apoio militar dos soviéticos. Por outro lado, em janeiro de 1961, os Estados Unidos cortaram relações diplomáticas com a ilha e passaram a proibir viagens de americanos a Cuba.

Depois de uma nova e frustrada tentativa de tomar a ilha, o governo americano declarou embargo total ao país de Fidel. Era o começo do isolamento, que dificultou a vida em Cuba e que só deu sinais reais de enfraquecimento com o presidente Barak Obama, décadas mais tarde.

Racionamento e crise

Cuba foi governada pelo Partido Comunista, liderado por Raúl e Fidel Castro, durante mais de 60 anos. Na prática, a atuação do partido sempre impediu a eleição de candidatos opositores – em 2021, o presidente cubano Miguel Diaz-Canel foi eleito para o posto mais alto do partido.

O governo de Fidel Castro foi marcado por questões polêmicas e de agressão aos direitos humanos. Entre elas, práticas contrárias à liberdade de expressão e a perseguição de homossexuais. Fato, último, reconhecido pelo ditador em entrevista à imprensa internacional.

Símbolo do racionamento de alimentos no país, a caderneta que dá acesso a toda população a itens básicos, como pão, leite, ovos e até cigarro, ainda gera polêmica até dentro do próprio governo: gasta-se muito com o programa e ele ainda é insuficiente. Entretanto, extinguir a livreta de uma hora para a outra ainda é impossível, visto que muitos dependem dessa fonte de alimentos.

Muitos cubanos, que foram afetados diretamente pelo novo modelo governamental, não suportaram a vida em Cuba e deixaram o país. Entre 1959 e 1970, mais de 500 mil fugiram de Cuba. Era um sinal de que algo estranho acontecia nesta ilha caribenha.

Com o passar dos anos, longe do mercado americano e com a crise no mundo socialista, Cuba se viu isolada e distante da globalização. Afetada por racionamentos e blecautes programados, os cubanos começaram a experimentar o revés no jogo.

Uma nova onda de imigrantes deixou o país. Cenas de embarcações improvisadas cruzando o Estreito da Flórida rumo às terras americanas correram o mundo e muitos morreram no caminho.

 A vida em Cuba hoje

Nos últimos anos, principalmente depois que Fidel Castro decidiu não mais se candidatar à presidência, o país tem experimentado certa evolução em sua política externa e a vida em Cuba teve melhoras significativas.

Durante o governo de Barack Obama, os Estados Unidos decidiram restabelecer o diálogo com o país reabrindo sua embaixada em Havana, mas as sanções do embargo econômico permaneceram.

Infelizmente, as negociações não avançaram depois da eleição do magnata Donald Trump para a Casa Branca. Depois da eleição de Joe Biden, tudo ainda permanece suspenso.

Em janeiro de 2021, Cuba unificou as moedas oficiais. Até a data, o peso cubano era usado pelos cubanos e o peso convertível, que tinha a mesma cotação que o euro, era exclusivo dos turistas.

A vida em Cuba

Com a mudança da moeda, o povo cubano ganhou mais poder de compra, mas o que se viu como efeito colateral foi uma inflação assustadora de 70% em 2021.

De acordo com reportagem do jorna El País, a nova crise econômica tem afetado tragicamente a vida em Cuba e já motivou cerca de 180 mil cubanos a fugirem da ilha no ano passado – o maior número da história do país.

Outras reformas foram anunciadas depois da eleição de Miguel Díaz-Canel. Ele é o primeiro presidente que nasceu depois da Revolução – que aconteceu em 1959 – e que não faz parte da família Castro.

Uma delas foi a atualização do Código das Famílias que passou a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a adoção de crianças por casais homoafetivos e a possibilidade de gestação por meio de barriga de aluguel. A mudança foi aprovada em plebiscito popular no final de setembro de 2022.

Ainda assim, a vida em Cuba se desenvolve a passos lentos. Os salários são insuficientes, produtos necessários para a vida cotidiana são controlados, a maioria das instituições é comandada pelo governo e a corrupção continua sendo varrida para debaixo do tapete.

Não há eleições diretas para presidente e a imprensa continua sendo censurada.

NOTA
Como tem acontecido com vários países ao redor do mundo, Cuba tem registrado uma escalada nos preços de forma geralizada. Em 2021, a inflação registrada no país foi de 70% e, em 2022, tem permanecido irredutível.

Informações Básicas

Visto

Brasileiros precisam de visto para entrar em Cuba, mas é possível obter o visto no aeroporto.

Documentos

É preciso apresentar o passaporte com validade mínima de seis meses e outros documentos obrigatórios.

Dinheiro

Cuba unificou as duas moedas do país em janeiro de 2021, mas o ideal ainda é é levar euros e trocar seu dinheiro em Cuba.

Vacinas

A vacina contra febre amarela é obrigatória e sem o Certificado Internacional de Vacinação e Profilaxia (CIVP) você não entra no país.

Informações sobre covid-19

Desde o dia 6 de abril de 2022, Cuba flexibilizou as medidas para o controle de entrada e saída de viajantes estrangeiros. Com isso, não é necessário apresentar certificado de vacinação ou testes negativos para covid-19, independente se você estiver vacinado ou não.

Atualmente, estas são as regras para entrar no país:

  1. Seguro viagem com cobertura para covid-19, exigido de todos os viajantes – faça uma cotação do seguro viagem;
  2. Testes de antígeno (teste rápido) podem ser realizados de forma aleatória e, caso o resultado dê positivo, as autoridades podem sugerir medidas cabíveis, como a quarentena;
  3. Enviar o Formulário de Saúde preenchido até 48 horas antes da chegada ao país;
  4. Certificado de vacinação contra febre amarela (CIVP) – veja como solicitar o CIVP pela internet.

Você pode acompanhar atualizações sobre o controle sanitário no Cuba Travel divulgado pelo governo cubano.

Retorno ao Brasil

Viajantes com o esquema vacinal completo não precisam fazer teste de antígeno (teste rápido) ou RT-PCR para retornar ao Brasil, e também não é preciso preencher a Declaração de Saúde do Viajante, que está suspensa pela Anvisa.

Viajantes não-vacinados ou vacinados parcialmente precisam apresentar resultado negativo de teste de antígeno (teste rápido), coletado até 24 horas antes do voo ou RT-PCR, coletado até das 72 horas antes do embarque.

Seguro viagem

 O seguro viagem para Cuba é obrigatório.  Sem ele, você poderá ser impedido de entrar no país.

É que mesmo tendo um serviço de saúde pública considerado referência, os hospitais e clínicas de Cuba só atendem gratuitamente quem mora no país – até os cubanos que vivem no exterior precisam de um seguro viagem.

→ Veja como comprar o seguro viagem certo para Cuba

Esta regra é antiga, foi implementada em maio de 2010, como mostra este comunicado.

A Seguros Promo é a plataforma que eu sempre uso para comparar os preços do seguro viagem, mas, apesar dela oferecer várias opções de seguro para a América Central, a única seguradora aprovada pelo governo cubano é a Assist Card, e o plano mais indicado é o AC 35 MUNDO COVID-19 (Exceto EUA).

→ Faça uma cotação do seguro viagem

O custo de um seguro viagem é menor do que se costuma pensar e ele garante que você terá atendimento em casos de emergências médicas comuns, como acidentes de trânsito, intoxicações alimentares, acidentes vasculares e infartos cardíacos, por exemplo.

Então, antes de embarcar, compre o seguro viagem, imprima o comprovante e tenho o número de emergência em local de fácil acesso.

INTERNET EM CUBA

Num país onde a imprensa é controlada com mão de ferro pelo governo, o acesso à rede mundial de computadores ainda é precário e está longe de satisfazer nossos desejos de conectividade. Na prática, a internet em Cuba é restrita a poucos pontos onde você pode se conectar. E já adianto: será preciso pagar por isso.

É que, em Cuba, não existe internet de graça, como encontramos em hotéis, restaurantes, cafés e até praças públicas ao redor do mundo. Então, mesmo que exista a rede wi-fi, você precisará pagar pelo cartão que dá acesso à internet.

Os cartões são vendidos nos comércios locais e nas lojas da ETECSA, a empresa estatal de comunicação, e custam entre CUP 12,50 e 125, mas pode ser que você encontre variações nos preços quando comprar os cartões na rua.

Eu vi gente cobrando o equivalente a CUP 70 pelo cartão de uma hora. Há também quem negocie o acesso no mercado paralelo. Nessa modalidade, o cartão de uma hora sai por mais ou menos CUP 25.

velocidade da internet em Cuba não é lá grandes coisas. O grande problema é que, como são poucos, os pontos de internet sem fio vivem cheios. E, como sabemos, o sinal nem sempre fica bom quando há muitas pessoas conectadas a uma mesma rede.

De forma geral, não percebi restrições às redes sociais. O Whatsapp funciona bem, apesar de ser um pouco difícil de enviar e receber arquivos por causa da velocidade da conexão. Instagram e Facebook também demoram um pouco para carregar.

Veja mais dicas de Cuba

Ficou mais fácil planejar sua viagem? Se tiver alguma dúvida, deixe sua pergunta nos comentários que eu respondo.

Se preferir, pode falar comigo no Instagram: @altiermoulin. Agora, aproveite para ver outras dicas de Cuba.

Sobre o Autor

<a href="https://www.penaestrada.blog.br/author/altier/" target="_self">Altier Moulin</a>

Altier Moulin

Sou jornalista, capixaba e apaixonado pelo universo viajante. Sempre gostei de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Quando criança, sonhava em viajar pelo mundo e, já adulto, isso virou um propósito de vida.

comentários

24 Comentários

  1. Roberto

    Olá Altier,

    Acabei de chegar de Cuba, e trago uma experiência inesquecível, para pior.
    O país está degradado e entregue à sorte. Com salários médios de 20€/mês, para os que têm a sorte de ter um emprego, resta-lhes a caça aos turistas, com uma pessoa de minuto a minuto, a pedir dinheiro, para que lhes compre alguma coisa, câmbio de moeda ou mesmo a pedirem a nossa própria roupa do corpo.

    São um povo muito alegre, mas que só fala de desgraça, da fome, da falta de emprego, da ditadura e de um monte de outras coisas negativas, para nós, que só queremos descansar e desfrutar um pouco. E têm razão. Segundo ouvi, Cuba perde cerca de 20.000 jovens por mês, que fogem da pobreza e da instabilidade política. Um médico cirurgião ganha cerca de 35 Euros por mês, quando nalguns restaurantes, localizados no meio de bairros horrorosos e malcheirosos, um jantar com frango assado, sem entradas, sem vinho e sem sobremesas custou-nos 65,00 Euros (La Guarida).

    Segundo ouvimos, se precisarem fazer uma cirurgia têm de levar as suas próprias agulhas, os bisturis, curativos etc., porque os hospitais não têm esses artigos. Mas esses artigos não se vendem nas farmácias, por isso, têm de pedir a algum parente que esteja na Europa ou nos Estados Unidos e ainda têm de pagar elevadíssimas taxas de alfândega para os receber. Se um médico resolver deixar o país, não terá o direito de levar consigo o teu título acadêmico, porque o governo apaga todo o seu histórico escolar e noutro país será um analfabeto, que só poderá trabalhar como empregada doméstica ou a servir de empregado de restaurantes. E não poderão retornar a Cuba
    Ao alugarmos um carro, deram-nos um lixo que fundiu o motor deixando-nos na estrada durante horas, porque a assistência é muito precária.

    Quando a assistência finalmente chegou, fizeram-nos retornar a Cienfuegos (estávamos quase a chegar em Trinidad) para nos trocarem o carro, mas o que nos deram, além de parecer ter saído de uma betoneira (todo amassado, com os para-choques emendados e imundo) cheirava a peixe podre e não tinha pastilhas de freio, isto é, o freio fazia-se com ferro contra ferro. E não pudemos recusá-lo. Em Varadero substituíram-nos esse também, mas na hora de o entregar, em Havana, cobraram-me indevidamente uma diferença de gasolina, que quando disse que não era justo, porque estava escrito no documento que o carro deveria ter 10 litros de combustível ou o pagamento do valor (e o carro tinha uns 15 litros) , ameaçaram-me a dizer-me que se não pagasse o valor, chamariam a polícia e eu não poderia mais sair do país (CUBACAR – SR. IDELFONSO). Além disso, obrigaram-me a pagar o preço em Euros, ao invés da moeda nacional, o que correspondia a 10 vezes o valor que eu pagaria no posto de gasolina. Uns verdadeiros ladrões e criminosos.
    Se optar pelo aluguel de um carro, recebes um carro que no meu país deveria estar no ferro velho. Na hora de abastecer, perdes horas nas filas e no final, ou falta gasolina, ou falta energia ou falta a gasolina especial (única utilizada nos carros mais modernos) ou falta tudo. Ainda por cima, só deixam abastecer 10 litros, que significa que vais ter de passar pela mesma situçao pouco depois. Com isso, muitas vezes temos de alterar os nossos planos para não ficarmos no meio da estrada sem gasolina, o que nos faz perder dias de viagem.

    Se optamos pelos táxis, temos de nos preparar porque nem sempre aparecem conforme combinado. Nas ruas, muitas vezes gastamos horas até encontrar um táxi e se chover, eles ficam todos em casa, por não verem os buracos na rua, que ficam cobertos de água. Quando estão escassos, cobram-nos o que querem. Às vezes tens de entrar num táxi e pagar um valor elevado e ainda dividir o carro com 2 bêbados, que foi o que nos aconteceu em Havana.

    A comida é má e insalubre. O serviço é péssimo. Muitas vezes os menus nem são apresentados porque ou só há 1 prato ou 2 alternativas. Por conta disso, em 3 dias já nem suportávamos a comida. 1 cerveja de lata de 330ml custa pelo menos 2 Euros. Um refrigerante custa o mesmo. Um mojito custa menos, por isso, sais de Cuba com o seu fígado em péssimo estado.

    As casas particulares, alternativas aos hotéis, vivem na pobreza e nalgumas nem havia um sabonete. Os cortes de luz diários obrigam-nos a andar com as lanternas dos telefones acesas, em casa e nas ruas e dormir com mosquitos e num calor de 40 graus é para esquecer.

    Os carros velhos são bonitos, as praias são ótimas, as bebidas são boas, mas nada mais. As pessoas são simpáticas, mas na verdade querem o nosso dinheiro. Se nos abordam e nos dão algo como um charuto, porque “trabalham na fábrica”, logo de seguida começam o peditório e o melhor é devolver a porcaria do charuto e fugir. Aliás, o melhor mesmo é nem deixar que se aproximem de nós, porque quando isso acontece, é sempre em nosso prejuízo. Melhor alternativa: ignorá-los. Aprendemos que quando queremos uma informação, temos de a pedir a alguém que esteja a trabalhar numa loja, para não corrermos o risco da pessoa querer te levar ao local e tentar nos extorquir.

    Fiquei em Cuba durante 16 dias e estive em Havana, Viñales, Pinar del Rio, (estas últimas sem infraestruturas por causa do furação), Playa Larga, Cienfuegos, Trinidad, Santa Clara e Varadero.

    Em Pinar del Rio minha mulher apanhou uma intoxicação alimentar.
    Em Cienfuegos, andei montes de quilómetros numa serra, com a estrada toda esburacada, até chegar a um ponto turístico chamado El Nicho. Seria bom dar um mergulhinho naquela cachoeira, mas infelizmente nem a vi. Cobravam-nos 10 Euros por pessoa para termos acesso à cachoeira. Mas isso não foi o pior. O valor tinha de ser pago EM EUROS, EM NOTAS. Como já tínhamos trocado todos os nossos euros, tivemos de voltar. Não voltei triste, mas sim revoltado com a situação (os locais pagam uma ninharia, em moeda cubana).

    Em Trinidad, tive de acompanhar um morador local numa compra de supermercado para ser eu a pagar com cartão de crédito (o único lugar que aceita cartões) e receber o dinheiro que iria pagar.

    Em Santa Clara o dinheiro acabou e das 5 ATM que existiam, nenhuma delas aceitava VISA, Mastercard ou American Express. Naquela noite dormi com fome e quando passei em frente a um bar animado com música, quase chorei de tristeza. Tive de antecipar a minha viagem para Varadero, na esperança de lá poder sacar algum dinheiro, o que felizmente aconteceu.

    Em Varadero, gastei o dia que tínhamos para ir à praia entre uma e outra agência da CUBACAR, que levaram o dia todo para fazerem a troca do carro, porque se eu tivesse um acidente por falta de freio, teria de pagar um carro novo à locadora, porque o seguro que me custou 300 Euros não cobria acidentes.

    Enfim, se eu soubesse que passaria 10% desse sufoco em Cuba, jamais teria visitado aquele país. Foi a minha primeira e última visita à terra de Fidel. Conheço cerca de 50 países e alguns muito complicados, como Myanmar, Índia, Bósnia, Bulgária e Rússia, mas nunca passei o que passei em Cuba.
    Por isso, em nome da vossa sanidade mental, sigam o meu conselho: FIQUEM LONGE DE CUBA! Pelo menos nos próximos 20 anos, se é que aquilo um dia vai melhorar.

    Responder
    • Altier Moulin

      Oi, Roberto.
      Primeiro, quero agradecer por seu comentário tão detalhado. Certamente, nos ajuda a complementar a visão que temos sobre viajar para Cuba.
      Tenho recebido muitos comentários de como o país tem se degradado rapidamente, especialmente por causa da inflação.
      O mundo está vivendo uma crise silenciosa e que afeta fortemente os mais pobres. Em Cuba, não é diferente a não ser pelo fato de que todos vivem com muito pouco – sobrevivem, para falar a verdade.
      É muito triste ler isso e saber que a ilha ainda tem muito o que fazer para vencer seus desafios, assim como nós enfrentamos os nossos.
      Vai dar certo!
      Um abraço e obrigado mais uma vez!

      Responder
  2. Luís Fernando Dias Medeiros

    Boa tarde, prezado companheiro!
    É difícil morar em cuba, aposentado?
    Minha esposa é pesquisadora da FIOCRUZ, INSTITUTO NACIONAL DE CONTROLE EM SAÚDE. Área toxicologia.
    Dai, pra ela é difícil trabalhar em serviço público (Estatal) na área de saúde pública?
    Assevero, que temos interesse efetivo de morar em cuba. É possível? Comprar uma residência em Cuba é possível?
    No aguardo.
    Sem mais.
    Att.
    Um forte abraço.
    Luís Fernando.

    Responder
    • Altier Moulin

      Oi, Luis.
      Eu não tenho informações sobre imigração como no seu caso, que pretende viver em Cuba.

      Sugiro que você entre em contato com o consulado de Cuba no Brasil.

      Rua Cardoso de Almeida, 2115 Sumaré – SP
      CEP 02151-001

      (11) 23698824- 23698825

      Horário de atendimento
      De segunda-feira a sexta-feira das 09h:30 até 12h:30.

      Um abraço!

      Responder
  3. José Alves da Silva

    Bom dia, Altier! Excelente matéria. Nunca estive em Cuba mas soube que é um país que investe em educação, ciência e conhecimento. Tem as suas dificuldade como mencionou com propriedade. Eu sou socialista mas não da linha marxista e defendo uma ação do Estado para controlar a usura do capitalismo. Nós, no Brasil, principalmente os que gostam de ostentação, criticamos o regime existente em Cuba por causa da vida controlada que aquele país está submetido e não atentamos para o embargo americano porque somos aculturados desde cedo a endeusar os EUA. Cuba é socialista e não comunista. As pessoas erram muito ao entender ambas palavras como sinônimas porquanto a segunda é a concretização de uma vida igualitária, sem preços, classes sociais e o próprio Estado, o que não acontece lá e nem em outro país.

    Responder
    • Altier Moulin

      Obrigado pela reflexão, José.
      Um abraço!

      Responder
      • KElly

        As condições de vida em Cuba são totalmente miseráveis. E não, não são miseráveis por causa do embargo americano, mas sim porque o socialismo gera pobreza. O embargo nunca impediu Cuba de transacionar com nenhuma empresa de outro país e mesmo assim não atrai investimentos estrangeiros. Em 60 anos de socialismo mais de 1 milhão de pessoas fugiram de Cuba, taxa de pobreza em 90%. O socialismo é a destruição, não consigo entender quem defende esse regime.

        Responder
        • Altier Moulin

          Oi, Kelly.
          Só quero fazer uma ressalva: o embargo impede sim que Cuba negocie com empresas que tenham negócios nos Estados Unidos.
          Obrigado por seu depoimento.
          Um abraço.

          Responder
    • Mara

      Obrigada pela explicação.

      Responder
      • Altier Moulin

        Por nada, Mara.
        Um abraço!

        Responder
  4. Eli Danilo Thomé

    Estive em Cuba – Jan 2020 – Muita pobreza. Um povo que ama seu País. Internet em algumas horas nas praças . Cidade limpa. Trabalhadores que limpam as ruas com vassouras improvisadas, bem como latões de lixo de algum recipiente reutilizado para lixo. Prédios belos, outros deteriorados. Não há assaltos, segurança total. Policais na rua não usam armas. Pessoas conversam altas horas da noite sentadas em cadeiras nas calçadas, o clima favorece. Ninguém dorme nas ruas. ocupam prédios velhos. Carros da década de 50, alegria dos turistas. Não tem favelas. O novo Presidente investe em agricultura, estão se modernizando aos poucos. Trump proibiu que Cruzeiros que saem de Miami, aportem em Cuba. Fizeram sua própria vacina pra Covid – Soberana -. O embargo americano os sufoca. O dia que ele acabar, será um grande País. Adoram Che Guevara mais que Fidel. Che falou ” Um País precisa de Saúde e educação”. Vale a pena visitá-lo.

    Responder
    • Lucio Sebastião

      Gosto muito das suas matérias jornalísticas está de Cuba conta a história de um país até os dias de hoje,quero conhecer Cuba estou estudando espanhol para entender um pouco los Hermanos.

      Responder
      • Altier Moulin

        Obrigado, Lucio!
        Cuba é um país fascinante e com uma história incrível.
        Vale a pena conhecer.
        Um abraço.

        Responder
  5. Marilene

    As pessoas passam fome em Cuba?

    Responder
  6. Cristiano

    Olá!
    Inicialmente parabéns pela matéria!
    Você conhece algum brasileiro que more em Cuba, ou mesmo guia local para esclarecer umas dúvidas?
    É que estarei em Miami em maio e quero visitar Havana e Varadero. Ainda é difícil voar de Miami para Cuba? E ir de Havana a Cuba também é complicado? Obrigado!

    Responder
    • Altier Moulin

      Oi, Cristiano.
      Sim, não há voos direto de Cuba para os Estados Unidos.
      Um abraço.

      Responder
  7. Lucas Coutinho

    E como é com relação à internet pros cubanos e serviços tecnológicos como temos aqui no brasil, tipo uber netflix… Video games etc. Como são as lojas? Onde as pessoas compram eletrodomésticos e coisas do tipo? Todas as lojas são do estatais?

    Responder
    • Altier Moulin

      Oi, Lucas.
      Esses serviços não existem em Cuba.
      Tudo que depende de uma boa conexão com a internet simplesmente não existe.
      Todas as lojas são controladas pelo governo. Tudo, exatamente tudo!
      Um abraço.

      Responder
  8. Valeria Balbi

    Eu estive lá nos anos 90, muita coisa deve ter mudado, já que na época fui atendida e medicada pagando apenas 1 dólar – que era o valor do peso cubano turístico – para repor o medicamento. O hospital era de primeiro mundo. Todos – digo todos mesmo – os adultos com quem tive oportunidade de conversar tinham cursado universidade. O analfabetismo era zero e o nível cultural sofisticado. Esquecemos uma carteira sobre a mureta do malecon e lá estava ela quando voltamos. Pobreza menor do que vi em grandes capitais brasileiras como Salvador, por exemplo. Viajei de ônibus e vi pequenos povoados simples, novamente menos pobres do que os nossos. Na época ninguém pedia nada nas ruas. Assisti a um discurso tipicamente longo de Fidel e o vi caminhando pela praça até o palanque rodeado de crianças correndo. Muitos franceses, alemães e espanhóis, além de crianças vítimas de Chernobil que estavam lá para se tratar. Povo alegre, divertido, acolhedor. Nada de luxo. A cada quarteirão, uma quadra de esportes, com cestas de basquete corroídas, assim como a pintura dos muros e fachadas… Mas isso foi há tempos, por volta de 3 décadas.

    Responder
    • Altier Moulin

      Obrigado pelo depoimento, Valeria.
      Um abraço.

      Responder
  9. Douhas

    Vejam Cuba e o Cameraman e aí não precisaram de relatos, distorcidos de turistas, de como vivem naquele país. Ganhou Emmy de melhor documentário e é sobre Cuba do início da revolução até dias atuais. O relatos daqueles que visitam uma das nação mais pobre do globo é importante para quem vai visitar mas não para quem quer saber como é a vida de lá.

    Responder
    • Altier Moulin

      Oi, Dunhas.
      Eu vi o documentário, assim como outros filmes cubanos. Eu não sei o que você quis dizer sobre relatos distorcidos, mas tudo bem.

      Me responde uma pergunta? Você já esteve em Cuba quantas vezes? Pergunto isso por que vi pessoas pedindo sabonete na rua, vi que o governo constrói bairros longe das áreas doa resorts para que turistas e moradores não interajam. E tb vi que faltava gasolina nos postos, leite nos mercados, e ovos, que são vendidos no “açougue”.

      Por fim eu tb vi de perto que não há eleições diretas em Cuba, que a Justiça não é independente e que a imprensa não é livre.

      Sem qualquer desses três, é inegável que a Revolução se transformou em uma ditadura.

      É isso. Boa sorte!

      Responder
  10. Aluisio Barbosa Jr

    Seria interessante se nos contasse o lado miserável de Cuba, se é que ele existe mesmo, como tal existe até mesmo nos EUA e Japão, com moradores de rua sem acesso ao básico para sobrevivência. O lado político já é bastante explorado e conhecido, porém, muitas vezes nos chega distorcido da realidade.
    Abração

    Responder
    • Altier Moulin

      Oi, Aluisio.
      No tempo que estive em Cuba não vi moradores de rua, pessoas totalmente abandonadas e “na miséria”, como você sugere.
      Há sim, muita pobreza, pessoas vivendo com o mínimo possível. Isso eu vi especialmente em Havana, já que nas cidades de praia as coisas são mais “organizadas”.
      O lado político existe e tem impacto na viagem desde o momento que a gente coloca os pés na ilha.
      Uma viagem a Cuba muda completamente a nossa cabeça sobre tudo o que pensamos sobre a ilha.
      Mesmo que tentasse explicar, não conseguiria. Só vivendo mesmo!
      Um abraço.

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