Bolívia: como é a viagem no Trem da Morte

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Atualizado em 10 de janeiro de 2019

Uma das formas mais baratas de chegar à Bolívia é embarcando no Trem da Morte. A linha férrea nos leva de Puerto Quijarro, na divisa com o Mato Grosso do Sul, até Santa Cruz de la Sierra, uma das principais cidades bolivianas.

Mas, antes de prosseguir, preciso explicar que esse nome surgiu porque essa linha férrea era usada para transportar doentes de uma grave epidemia de febre amarela que aconteceu na região de Santa Cruz no século passado.

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A viagem no trem operado pela Ferroviaria Oriental representa o verdadeiro estilo mochileiro de viajar. O roteiro é feito de forma independente, sem luxo e, principalmente, tem baixo custo.

O primeiro passo para quem deseja pegar o Trem da Morte é chegar a Corumbá de ônibus ou de avião. Infelizmente, a ferrovia brasileira que parte de Bauru, no interior de São Paulo, só transporta cargas. Foi isso que os viajantes Ives Duque, de Campos, no Rio de Janeiro e Gledson de Oliveira Raymundo, de São Paulo, fizeram.

O meu objetivo era entrar na Bolívia por terra atravessando a fronteira em Corumbá. De lá, ia seguir no Trem da Morte até Santa Cruz de la Sierra e atravessar toda a Bolívia. Assim, chegaria a Machu Picchu, no Peru”, conta Ives.

Bolívia: como é a viagem no Trem da Morte

Mapa das linhas férreas que conectam a Bolívia a outros países.

O trem da morte

Antes de comprar sua passagem, você precisa decidir qual o veículo e a classe que deseja viajar. Isso vai influenciar diretamente no seu conforto e na sua segurança durante esta longa viagem.

Três modelos de trens fazem a rota que liga o Brasil ao coração da Bolívia. O mais clássico é o Expresso Oriental, que demora cerca de 17 horas de Puerto Quijarro a Santa Cruz de la Sierra. Esse veículo tem vagão restaurante e as cabines são bem equipadas. Todas têm televisão, música ambiente, luzes de leitura, banheiros químicos e ar-condicionado. A passagem na classe Super-púllman custa BOB 100.

Eu viajei no Trem Expresso Oriental. Ele é confortável, mas a verdade é que os bolivianos não ligam para luxo. Inclusive, colocam as crianças no chão do trem sem cerimônias”, explica Gledson.

Bolívia: como é a viagem no Trem da Morte

O interior da classe Super-pullmán. Foto: Gledson Raymundo

Já o Ferrobus, o mais caro deles, tem vagões com cama. A viagem demora menos de 14 horas até Santa Cruz de la Sierra. Suas cabines são equipadas com ar-condicionado, televisão, música ambiente e banheiros. Além disso, toda a alimentação e o serviço de bordo estão inclusos no preço da passagem, que custa BOB 235.

A outra categoria, chamada de Mixto, não é indicada para turistas. Ainda assim, muitos mochileiros escolherem esta opção por causa do preço. Custando apenas BOB 45, a viagem é feita em vagões sem ar-condicionado e com o mínimo de conforto que você pode imaginar.

Neste veículo, você correrá o risco de ficar completamente cercado por bagagens. Os passageiros têm o costume de colocar as suas malas e bolsas sob os assentos, na frente de seus pés e em todos os lugares onde restar um pouco de espaço. Isso pode tornar sua viagem muito desconfortável, já que você não poderá se movimentar.

Bolívia: como é a viagem no Trem da Morte

A estação ferroviária de Santa Cruz de la Sierra. Foto: Gledson Raymundo

Como comprar a passagem

Os trens partem diariamente de Puerto Quijarro e aqui você pode consultar os horários e as tarifas. Algumas agências de viagem que funcionam em Corumbá vendem a passagem, e você pode comprá-la assim que chegar à cidade, mas é sempre melhor adquirir o bilhete com antecedência no site da Ferroviaria Oriental.

Outro meio muito comum de conseguir um bilhete é através de cambistas. Brasileiros e bolivianos negociam livremente as passagens na fronteira, mas se você escolher esta modalidade terá que arcar com os riscos de comprar uma passagem falsa.

Bolívia: como é a viagem no Trem da Morte

Fachada da estação de Puerto Quijarro. Foto: Gledson Raymundo

Foi exatamente isso que aconteceu com Ives. Ele sabia que é comum encontrar moradores vendendo tíquetes com um valor um pouco maior para viajantes que não mais encontram as passagens no guichê da estação ferroviária. Mesmo sabendo dos riscos, ele pagou pela passagem do cambista.

Eu atravessei a fronteira, saindo de Corumbá e chegando direto na estação em Puerto Quijarro. Quando cheguei, conheci outros viajantes, todos com suas mochilas esperando um morador local que havia prometido trazer os tíquetes, pois na bilheteria eles já estavam esgotados.

Depois de muita espera, o boliviano chegou com nossos tíquetes. Negociamos um pouco o preço, mas acabamos comprando, já que não tínhamos outra opção. Nesse momento começamos a perceber que estava acontecendo algo de errado, que só tivemos certeza quando entramos no trem: nós não recebemos os tíquetes, mas o guarda nos deixou entrar mesmo assim, e o funcionário que confere os bilhetes nos pulou e, acreditem, o vagão estava vazio”, conta o viajante.

Bolívia: como é a viagem no Trem da Morte

Os viajantes que foram detidos por causa da passagem falsa. Foto: Ives Duque

Essa história não acaba aqui. Na manhã seguinte, antes do desembarque, um policial entrou no vagão de Ives para conferir os bilhetes. Nessa hora, nem ele nem os outros viajantes do seu grupo tinham a passagem para apresentar. Mesmo explicando o que havia acontecido, Ives e os amigos tiveram os passaportes apreendidos.

Então, fomos a um posto da polícia na estação de Santa Cruz de la Sierra, onde tomaram nosso depoimento e assinatura. Nessa hora, eles nos colocaram um terror falando que muitas coisas poderiam ter acontecido com a gente, pois caímos na rede de uma quadrilha que envolvia moradores locais e funcionários do trem. Mas, no final, depois desse grande susto, os policiais nos liberaram”, lembra Ives.

Cruzando a fronteira

A maioria dos brasileiros chega ao ponto da divisa entre o Brasil e a Bolívia de táxi. Daqui pra frente, você terá que exercitar um pouco a sua paciência. É que dependendo da época, os postos de imigração brasileiro e boliviano ficam lotados e você precisa aguardar na fila para receber os carimbos autorizando sua viagem.

A saída terrestre do Brasil para a Bolívia é muito ruim. Temos que encarar a fila da Aduana Brasileira para dar a sua saída do Brasil e do lado boliviano mais fila de turistas para dar entrada no país”, lembra Gledson.

Bolívia: como é a viagem no Trem da Morte

Uma das paradas do Trem da Morte. Foto: Ives Duque

Para entrar na Bolívia, brasileiros podem apresentar a carteira de identidade, desde que esteja em boas condições e que tenha sido emitida há pelo menos dez anos, ou o passaporte dentro da validade. Carteira de motorista, certidão de nascimentos ou qualquer outro documento não será aceito.

Se você estiver planejando visitar áreas da Floresta Amazônica boliviana, o governo brasileiro sugere que você seja vacinado contra a febre amarela. Para saber mais, leia: Dicas para evitar malária e febre amarela.

Cuidados na viagem

Além de ficar esperto na hora de comprar sua passagem no Trem da Morte, é muito importante ter cuidado com objetos pessoais e com sua bagagem. A Bolívia é um país muito pobre e, apesar de não ter tanta violência, você sempre estará cercado por pessoas tentando se aproveitar de você de todas as formas.

Histórias como a de pessoas entrando no bagageiro do ônibus para furtar mochilas durante a viagem e bloqueios na estrada com apedrejamento são reais, acredite, aconteceu comigo. Mas cada momento foi incrível”, alerta Ives.

Já o Gledson teve uma viagem mais tranquila. Mesmo comprando a passagem com um cambista, ele fez a viagem tranquilamente e recomenda. “Em nenhum momento eu me senti inseguro. A viagem foi muito tranquila, não dá medo algum. Com certeza muito do que se fala sobre o Trem da Morte é lenda”, ressalta.

Um conselho que todo viajante deve observar é quanto à alimentação: leve algo para beber e comer durante a viagem. Dentro do vagão, você pode comprar lanches rápidos e, como eu já expliquei, algumas passagens incluem refeições, mas veja o que nos conta Ives Duque:

Nas paradas, muitos vendedores vão até a janela para oferecer alimentos. Se tiver coragem, isso pode ser sua salvação, caso não tenha suprimentos na mochila. A refeição do trem não sustenta muito”, alerta.

Bolívia: como é a viagem no Trem da Morte

Um dos muitos vendedores ambulantes das paradas. Foto: Ives Duque.

Bolívia: como é a viagem no Trem da Morte

A marmitinha servida no Trem da Morte. Foto: Ives Duque.

Se você quiser saber mais sobre os cuidados mais comuns que você deve ter em uma viagem à Bolívia, leia: Cuidados ao viajar para a Bolívia.

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

61 Comentários

  1. Avatar

    Muito completo o seu post, Altier. Imagino o trabalhão que deu para escrever.
    Esse lance de gente que entra no bagageiro rola no Peru tbm, é tenso. Sempre que possível, viajo com o meu mochilão perto de mim.

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    MANOEL MESSIAS DOS SANTOS on

    BOM DIA
    Chegando Corumbá no Mato Grosso do Sul essa cidade é fronteira com Puerto Quijarro ou seja não precisa pegar nenhum ônibus p chegar.

    • Altier Moulin
      Altier Moulin on

      Oi, Manoel.

      Quem chega a Corumbá vai precisar pegar uma condução até o terminal de trens, no lado boliviano.

      Um abraço.

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    Muito bacana as postagens sobre a Bolívia,moro em Corumbá e já fui 4 vezes a Santa Cruz de La Sierra,quanto a questão do roubo e insegurança nunca aconteceu nada comigo,pra mim sempre foi muito tranquilo viajar pra lá.Sempre fui de ônibus,o conforto é extremo por um preço extremamente barato, fui de trem na última vez que estive lá na classe super pulmam e foi incrível a viagem,recomendo.(Eu paguei 70 Bo em junho, acredito que nas férias seja 100 bo pois os preços de tudo sobem em julho,dezembro e janeiro).Em julho irei a La Paz e Copacabana, meu sonho é conhecer esta outra Bolívia!

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    Lembrando que esse Trem Mixto fora desativado,eu já suspeitava algum tempo e perguntei a um funcionário que me confirmou a informação, só há saídas do Expresso Oriental e Ferrobus em dias alternados,eu percebi que nas férias e festividades o Expresso Oriental sai extremamente cheio, creio que para suprir ausência do mixto ele faça viagens extras nesse trajeto,pois vi ele voltando a fronteira em um dia em que não funciona,e a fila no terminal bimodal de Santa Cruz para o embarque ao Expresso Oriental era absurda de imensa.

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    Quantos dias são necessários para pegar o trem da morte na Bolívia até Santa Cruz de La Sierra, atravessar toda a Bolívia até Machu Pichu no Peru. Ficando um pouco em cada cidade?

    • Altier Moulin

      Oi, Paula.

      Difícil sua pergunta, hein!
      Você pode fazer isso em 15 dias, mas também em 30. Depende do quanto você quer ficar em cada cidade.
      De Santa Cruz, você pode seguir até Chochabamba, La Paz, Copacabana, atravessar a fronteiro para o Peru em Puno e subir até Cusco/Machu Picchu.

      Um abraço e boa aventura.

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    oi, estou saindo de curitiba nesta sexta, 15 de setembro, pra fazer essa trip do trem da morte… todas essas informações vão ser muito uteis, porem queria saber quanto tempo durou, quanto vc gastou, e se tem algum roteiro que eu possa entrar na Bolivia e sair no paraguai.. outra coisinha, é necessário barraca ou compensa mais dormir em hotéis ? muito obrigado, aguardo sua resposta. 😀

    • Altier Moulin

      Oi, Everton.

      Desculpe a demora em responder.

      Não entendi muito bem suas perguntas. Você quer saber quanto tempo durou a viagem de trem ou a minha viagem ao país? Eu fui duas vezes à Bolívia e fiz roteiros bem diferentes.

      Nas duas vezes, fiquei cerca de 10 dias. Não saberia lhe dizer quanto gastei.

      Um abraço.

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    Olá! Farei essa viagem em breve. Embora seja possível comprar a passagem do trem pela internet, ouvi dizer que chegando lá em Corumbá é necessário pegar um “permiso” na Polícia Federal brasileira e boliviana, e que este procedimento é um caos. Portanto, tenho medo de comprar a passagem de trem pela internet, chegar lá e não conseguir embarcar por problemas neste permiso. Você saberia me orientar?

    • Altier Moulin

      Oi, Debora.

      Pelo que sei, este ‘permisso’ é a imigração, o procedimento de entrada e saída nos países, que é normal em qualquer fronteira.
      Basta se programar para não chegar em cima da hora que dá certo.

      Um abraço.

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    Oi eu quero ir na Bolivia mais eu nem sei por onde começar. Eu moro em Goiania Goias. Eu achei os parantes do meu pai depois de 63 anos.

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    Muito bom seu post,nunca tinha ouvido falar do trem da morte ,”impolgante”.
    Estou me planejando para ir a Bolívia em maio talvez farei esse roteiro.
    Valeu abraços

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    Peter Willians Dario on

    Fiz esta viagem pelo Trem da Morte em 1980.
    Foi fantástica, e até hoje a guardo na lembrança.
    Não tive nenhum problema com relação à segurança.

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    Olá, muito bom seu texto, farei essa viagem no próximo ano e gostaria de saber se você tem algumas dicas sobre como chegar até machu pichu, saindo de Santa Cruz. Obrigada!

    • Altier Moulin

      Oi, Laura.

      O caminho mais viável é por Puno, na divisa do Peru com a Bolívia.
      Você pode fazer o seguinte roteiro: Santa Cruz – Cochabamba – La Paz – Copacabana – Puno – Cusco/Machu Picchu.

      Dá pra fazer tudo de ônibus ou de avião até Puno.
      De Puno a Cusco há, também, a opção de trem. Mas fica mais caro.

      Um abraço.

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    Olá tudo bom? Gostaria de fazer esse mesmo roteiro Bolivia – Peru agora em novembro de 2018. Seria possível conversamos para pegar melhores dicas? Obrigada!

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    Olá Moulin, parabéns pelo blog, tem sido de grande utilidade. Eu gostaria de pegar o Expreso Oriental, mas como talvez eu viaje com uma pessoa, pensei no Ferrobús mesmo, como o horário de saída desse é às 18h, você acha que vou perder toda a beleza do trajeto por ser noite?

    • Altier Moulin

      Oi, Filipe.

      Muita gente prefere viajar à noite mesmo, porque dorme e passa mais rápido.
      Há quem fale que a paisagem não é lá essas coisas e, por isso, prefere viajar à noite.
      Eu prefiro viajar à noite, mas durante o dia você terá a real experiência de viajar no Trem da Morte.

      Um abraço.

  14. Avatar

    Oi. Estou pesquisando sobre a viagem no trem da morte. Gostei muito do seu relato é a sua disposição de colaborar com outros aspirantes àquela viagem. Pergunto-lhe: é possível cambiar moeda em Corumbá ou Puerto guirrajo?

  15. Avatar
    Patricia Tavares on

    olá, estarei saindo do acre( primeiro mochilão só rsrsrs), pretendo passar apenas por cidades bolivianas, tem como ir sem passar no peru(apenas mochilando de ônibus, trajetos)?, esse trem pode comprar passagem de Santa Cruz de la Sierra a Puerto Quijarro?

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