A memória do Gueto de Varsóvia

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Atualizado em 27 de abril de 2018

A Polônia foi o país que mais sofreu com a Segunda Guerra Mundial. Mais de seis milhões de poloneses morreram no conflito, entre 1939 e 1945. A maioria, homens e mulheres comuns, nada tinha a ver com o conflito ideológico que motivou os ataques e a ocupação do país. E, para quem está planejando conhecer a Polônia, visitar um dos maiores símbolos dessa trágica história, o Gueto de Varsóvia, é indispensável.

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A Segunda Guerra Mundial teve como motivação principal a conquista de territórios por parte da Alemanha nazista. O país tinha o claro objetivo de repovoar toda a Europa com a raça alemã.

O primeiro passo para a maior guerra de todas as eras aconteceu em 1º de setembro de 1939, quando o exército de Hitler invadiu a Polônia. Dezesseis dias depois, o exército vermelho da ex-União Soviética também entrou no combate avançando pela fronteira oriental do país. Isso porque a maioria das tropas polonesas se concentrava na porção ocidental, por onde avançavam os militares alemães.

O que o mundo ainda não sabia, até então, é que toda essa trama de ocupação e de divisão da Polônia já tinha sido acordada entre Stalin, líder da antiga União Soviética, e Hitler, comandante das forças alemãs, no Pacto de Não-Agressão.

Disputando o mesmo território, os dois países protagonizaram uma guerra que devastou grande parte das cidades polonesas. Para ter uma ideia, Varsóvia, a capital da Polônia, teve mais de 85% de seu território destruído e sua população foi reduzida drasticamente para cerca de 10%: de 1,3 milhão de pessoas, a cidade passou a ter pouco mais de 150 mil.

O imperdível Memorial do Holocausto, em Berlim

Mapa da ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

No lado nazista, dezenas de campos de concentração foram criados, inicialmente, para abrigar presos políticos – poloneses que se opunham ao regime nazista – e soldados soviéticos derrotados nos combates. Mais tarde, esses campos passaram a receber judeus vindos de diversas partes da Europa que, em 1941, já estava sob o domínio de Hitler.

Com o envolvimento de países como Estados Unidos, Inglaterra e França, os ataques ao domínio alemão se intensificaram, aumentando o número de civis mortos, tanto nos países ocupados, quanto na própria Alemanha. O maior conflito de todos os tempos acabou em 1945, com a rendição do Japão, país aliado da Alemanha, depois que Hiroshima e Nagazaki foram destruídas por bombas atômicas.

Criado pelos nazistas, em 1940, o Gueto de Varsóvia era um lugar nada agradável, onde judeus de toda a Polônia foram confinados – veja o mapa. Cercado por muros de tijolos vermelhos, o espaço chegou ter a maior concentração de judeus marginalizados de todo o período da Segunda Guerra. Em seu auge, quase 400 mil pessoas em condições precárias viviam amontoadas dentro de seus muros, em meio a doenças e uma sujeira sem fim.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Símbolo que deveria ser usado por todos os judeus.

Depois de serem confinados como animais, os judeus aguardavam o momento de serem enviados aos campos de concentração. Um dos principais destinos da população do Gueto, o campo de Treblinka, ficava a 105 quilômetros de Varsóvia. E, a partir de 1942, ele passou a receber mais e mais judeus. Estes, sem saber, entravam nos vagões do trem em direção a um único destino: a morte. Hoje, sabemos que grande parte dos passageiros era formada por idosos e crianças.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

O espaço destinado a receber os judeus prisioneiros.

Maldades médicas

Nessa época, já corria na Europa a fama dos experimentos médicos feitos com judeus no campo de Ravensbrück. Naquela estação de horrores, as equipes médicas removiam os músculos e os nervos de pessoas vivas, sem anestesia. A desculpa era entender como os tecidos humanos podiam se regenerar.

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Os princípios que nortearam a ideologia nazista foram o ódio aos judeus, a negação da democracia e do comunismo, e a convicção da superioridade da raça alemã sobre qualquer outro povo. Com a ideia de criar uma sociedade pura, livre de outras etnias, os nazistas perseguiram e mataram milhões de judeus, mas não apenas. Eslavos, russos, ciganos, homossexuais e tantos outros grupos foram capturados, escravizados e assassinados nas câmaras de gás ou simplesmente fuzilados.

Liderado por Adolf Hitler, o Partido Nazista tomou o poder na Alemanha, em 1933, e, desde então, a política de doutrinação da população por meio da propaganda, que mostrava uma realidade disfarçada, passou a ocupar os veículos de comunicação nacionais.

Isso criou, em parte dos alemães, uma forte simpatia com os ideais defendidos pelos nazistas. Em um de seus famosos pronunciamentos, durante o congresso do Partido Nazista de 1937, Adolf Hitler defendeu o seu modelo nada convencional de formação. “Estamos educando uma juventude diante da qual o mundo inteiro temerá. Eu quero uma juventude que seja capaz de realizar violações, e que seja forte, poderosa e cruel”, declarou o ditador.

Em busca de poder, a Alemanha nazista matou, invadiu territórios e levou a Europa e países como Estados Unidos e Japão a se envolverem na maior guerra de todos os tempos. Uma guerra que não apenas mudou as relações políticas, mas que, principalmente, marcou para sempre a história da humanidade.

No campo de Dachau, as invenções da equipe médica eram piores: a pele dos prisioneiros mortos servia de matéria-prima para bolsas, chinelos e luvas. Se não houvesse mortos suficientes, era só matar mais alguns.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Quem não perdeu a vida no Gueto encontrou a morte nos campos de concentração.

A vida dos judeus valia muito pouco – ou simplesmente nada – para a ideologia nazista. Mas, como sabemos, outros grupos também foram perseguidos por Hitler. O pacote de maldades incluía eslavos, negros, ciganos, gays e Testemunhas de Jeová, mas, entre as minorias, os judeus eram a maioria. No Gueto de Varsóvia eles eram unanimidade.

A revolta de Varsóvia

Dentro do Gueto, homens e mulheres que ainda tinham um sopro de esperança, planejaram uma revolta, uma luta dos judeus contra a opressão nazista. A ajuda vinha de fora, de simpatizantes que infiltravam armas e explosivos no Gueto.

Há inúmeras histórias de poloneses que se envolveram com as dolorosas histórias do Gueto de Varsóvia. Uma delas é a de Irena Sendler que resgatou mais de 2.500 crianças, pondo em risco sua própria vida.

Durante os primeiros dias do que ficou conhecido como o Levante de Varsóvia – Powstanie warszawskie, em polonês –, o pequeno exército judeu, formado por pessoas que nunca tinham pegado em uma arma de fogo antes, incluindo crianças, teve êxito. Mas isso só aconteceu porque os nazistas jamais esperavam uma reação dos confinados.

Entretanto, como o poder de fogo do exército de Hitler era infimamente maior, logo a situação foi controlada. Como vingança, em 1943, o ditador alemão mandou exterminar todos os judeus do Gueto e, mais, ordenou que o lugar fosse completamente destruído.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Judeus rendidos depois da revolta. Foto: Jürgen Stroop

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Soldado voluntário, de apenas 12 anos, morto durante o Levante.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Foto que mostra a destruição do Gueto, em 1943.

O Gueto de Varsóvia hoje

Durante a reconstrução da cidade, no pós-guerra socialista, vários prédios foram construídos na região onde ficava o Gueto. Os únicos sinais de sua existência são uma pequena parte do Muro do Gueto, que virou um memorial, e o traçado no chão, que podemos ver em algumas áreas da cidade.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

O que restou do Muro do Gueto virou um memorial.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

O traçado original do Muro do Gueto.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Conjunto de prédios construído no pós-guerra.

Uma grande parte dessa história é contada no Museu do Levante de Varsóvia. Em três andares, ele exibe um incrível acervo sobre esse período histórico, incluindo a recriação de ambientes do Gueto, relatos e histórias de sobreviventes. Isso além de um vídeo em 3D que mostra como a cidade ficou devastada depois da Segunda Guerra.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Visitantes no Museu do Levante de Varsóvia.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Um dos ambientes do Gueto recriados no Museu.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Cena do filme 3D que mostra como a cidade ficou destruída depois da Guerra.

Em toda a cidade há vários pontos de memória, sempre identificados com a sigla WP. Estes pontos lembram os mortos do movimento de resistência judeu, o Levante de Varsóvia. Uma visita ao Memorial do Levante de Varsóvia também vai lhe ajudar a entender melhor essa história.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Um dos pontos de memória dos horrores da Guerra.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

O símbolo do Levante.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

O importante Memorial do Levante de Varsóvia.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

Detalhe do Memorial, que fica na Stare Miasto.

Planeje sua visita ao Memorial do Gueto

Quanto custa | A entrada no Museu do Levante de Varsóvia custa PLN 18. Todos os outros lugares de memória, citados neste post, são gratuitos.

Quando ir | O Museu não abre nas terças-feiras, e o horário de funcionamento varia de acordo com o dia. Nas segundas, quartas e sextas, ele abre das 8h às 18h. Nas quintas, das 8h às 20h. Nos sábados e domingos, as visitas podem ser feitas das 10h às 18h.

O verão na Polônia é bem curto, já o inverno é longo e muito frio. Os meses mais gelados vão de outubro a abril, quando os termômetros marcam temperaturas abaixo de zero.

Entre maio e setembro, os dias tendem a ser mais ensolarados, com temperaturas variando entre 20 e 27 graus. O mês mais quente é julho, e o mais frio é janeiro, com temperaturas chegando a menos cinco graus.

A triste memória do Gueto de Varsóvia

O Memorial do Pequeno Insurgente: dizem que homenageia as crianças que lutaram no Levante.

Quem leva | Há vários passeios que levam você para conhecer essa parte da história de Varsóvia. Eu realmente sugiro que você esteja acompanhado de um guia, para que sua visita seja mais completa e com mais detalhes. Veja as opções de passeios para o Gueto de Varsóvia.

Como chegar | O Memorial do Muro do Gueto fica no pátio de alguns prédios residenciais. A entrada pode passar despercebida, pois fica entre algumas lojas. A ONZ é a estação de metrô mais próxima, e os ônibus da linha 174 param praticamente na esquina.

Para chegar ao Museu do Levante, você pode descer na estação Daszyńskiego, do metrô. Pode também, pegar o bonde elétrico das linhas 1, 9, 13, 20, 22, 24 e 27, e descer no ponto do museu – Muzeum Powstania Warszawskieg.

O Memorial do Levante de Varsóvia fica na Cidade Velha – Stare Miato –. É lá também, onde estão muitos outros monumentos que lembram esta época. Para chegar aqui, pegue um dos ônibus das linhas 116, 180, 503, 518 ou N44. Veja as localizações no mapa abaixo:

O Aeroporto Frederic Chopin (WAW), em Varsóvia, é o mais importante da Polônia. Aqui, chegam voos nacionais e internacionais, mas não há voo direto do Brasil para o país. Veja mais informações em: Voos para a Polônia: companhias aéreas e aeroportos.

Onde ficar | Varsóvia é linda. Em suas avenidas largas, a arquitetura clássica contrasta com prédios modernos. Então, escolher um lugar para ficar por aqui será fácil. Para quem está interessado na parte histórica da cidade, a região da Stare Miasto – o Centro Histórico – é ideal. Para quem quiser aproveitar um pouco mais da vida moderna da cidade, o Centro, especialmente a área perto do Palácio da Cultura e da Ciência, é sensacional.

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Visto e documentos | Brasileiros não precisam de visto para entrar e permanecer no país por até noventa dias, mas você precisará apresentar o passaporte dentro do prazo de validade. Carteira de identidade e quaisquer outros documentos brasileiros não serão aceitos. O seguro viagem é obrigatório e, sem ele, você pode ser proibido de entrar na Polônia. Veja como comprar seu seguro viagem com desconto.

Outras informações | Para ver outras informações sobre o país e planejar sua viagem com mais precisão, leia: Viagem para a Polônia: informações essenciais. Para quem gosta de cinema, uma boa dica é dar uma olhada nessa lista: Nove filmes sobre a Segunda Guerra Mundial.

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

4 Comentários

  1. Avatar
    Maria Bernadete Malerbo on

    parabéns Altier. seu post é perfeito. rico em historia e detalhes. obrigada pela narração, será de grande ajuda na elaboração do nosso roteiro

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