Conheça a Pequena África, no centro do Rio

0

Atualizado em 16 de abril de 2018

Bem pertinho na Zona Portuária do Rio de Janeiro, fica a Pequena África. Este é um reduto de negros que, há séculos, vivem nessa região carioca. Com suas ruas estreitas, prédios ainda decadentes e muros grafitados, hoje, essa área é, também, um dos mais atraentes espaços boêmios da cidade.

Historiadores contam que, logo depois que o comércio de escravos foi proibido no país e, mais tarde, com a abolição da escravidão no Brasil, essa área passou a ser procurada por negros de várias regiões. Nessa espécie de quilombo, eles empregaram sua cultura, suas memórias e, principalmente, expressaram sua liberdade.

Num passeio que dura metade de um dia, você pode caminhar pelo Largo São Francisco da Prainha. É aqui que está a capela que dá nome ao lugar. Há também alguns dos bares mais concorridos da região, como o Angu do Gomes, famoso pelos pastéis de polenta.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

Os decadentes, mas importantes prédios do Largo de São Francisco da Prainha.

Berço do samba

Mais para frente, você vai encontrar a Pedra do Sal. Aqui, apesar de não terem certeza, dizem ter nascido o samba, ritmo que virou um forte traço da identidade e da cultura brasileira. Ainda hoje, há rodas de samba que celebram a negritude do bairro, e a segunda-feira é o dia mais concorrido.

Na Pequena África o Carnaval também é tradição. Aqui, se destacam o bloco Escravos da Mauá, que sai na sexta e no domingo, e a escola de samba Vizinha Faladeira.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

A Pedra do Sal é considerada o berço do samba.

Mas a Pedra do Sal não é apenas sinônimo de alegria. Seus degraus, esculpidos a mão pelos escravos, eram usados por negros que carregavam o sal do porto para os armazéns. Nas paredes de seu entorno, protestos lembra que ainda estamos muito longe de ser um país livre do racismo e da intolerância.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

Os degraus feitos pelos escravos.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

Protestos em forma de grafite na Pequena África.

Subindo o Morro da Conceição, a gente vai percebendo como a comunidade está organizada. Numa caminhada de cerca de meia hora, passamos por mirantes e descemos pelo Jardim Suspenso do Valongo até chegar ao Cais do Valongo e da Imperatriz.

Todas essas construções foram erguidas por escravos, e era também aqui na região do porto que eles passavam o período de quarentena nas Casas de Engorda, onde ganhavam peso antes de serem vendidos.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

Um dos mirantes do Morro da Conceição.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

Detalhe do Jardim Suspenso do Valongo.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

A escavação que revelou o cais onde chegavam os negros.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

Detalhe do porto onde chegavam os negros.

Cemitério de escravos

Seguindo nosso roteiro pela memória negra do Rio de Janeiro, chegamos ao Instituto Pretos Novos. A história desse lugar é simplesmente fantástica, e eu acredito que você já tenha ouvido falar a respeito: uma senhora decide reformar o piso de sua casa, mas durante a obra são encontradas dezenas de ossadas. Mais tarde, pesquisas mostraram se tratar de um antigo cemitério de escravos que ocupada praticamente um quarteirão inteiro.

Transformada em museu, hoje, você pode visitar a casa e ver de perto como andam as pesquisas arqueológicas desenvolvidas no lugar. Porém, muito mais do que desvendar o segredos do passado, o Instituto trabalha para conscientizar a sociedade de que, por mais que tenhamos evoluído, o caminho ainda é longo.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

Fachada do Instituto Pretos Novos.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

Uma das salas do Museu.

Programe seu passeio pela Pequena África

Quanto custa | Todo o trajeto é feito gratuitamente, mas se você quiser saber mais sobre cada lugar, eu sugiro contratar um guia. Quem me acompanhou foi o Leandro, um professor que conhece muito bem a história desse lugar. Para contatá-lo, ligue (21) 9 8675-2044 ou escreva para [email protected]

Quando ir | É possível visitar a Pequena África todos os dias do ano. Nas segundas-feiras, a roda de samba da Pedra do Sal fica lotada e moradores comercializam bebidas e petiscos nas calçadas. Durante a semana, algumas casas se abrem para oferecer produtos artesanais fabricados por moradores. Eu fiz esse passeio à tarde e não me senti inseguro, mas é bom evitar ostentar objetos de alto valor.

O Instituto Pretos Novos funciona de segunda a sexta, das 11h, às 18h, e nos sábados das 11h às 14h. A entrada é gratuita. Para saber mais, consulte a página do museu.

Como chegar | Uma das grandes novidades dessa área é o VLT, uma espécie de bondinho moderno que nos leva até as principais atrações do Boulevard Olímpico. Se estiver nesta área, você pode descer na Estação dos Museus e caminhar até a região da Pequena África.

De trem, uma boa opção é descer na Central do Brasil e seguir caminhando. Nesse sentido, seguindo pela Rua Senador Pompeu, você chegará ao Jardim Suspenso do Valongo. O Uber funciona bem no Rio de Janeiro.

Onde ficar | Eu me hospedei no Belga Hotel. Ele fica no Centro, bem perto das principais novas atrações do Rio, nos arredores do Boulevard Olímpico. A ideia do Belga Hotel é compartilhar o estilo de vida belga com o público através da comida, dos hábitos e do atendimento.

Os quartos são compactos, mas muito bem aproveitados, e as áreas comuns servem para que os hóspedes interajam mais entre si e com os funcionários do hotel. Se quiser saber mais, leia: Belga Hotel: uma boa opção no coração do Rio ou consulte as tarifas e faça sua reserva.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

Um dos quartos do Belga Hotel.

Conheça a Pequena África no centro do Rio de Janeiro

O objetivo é mostrar a cultura belga, como esse croquete de queijo, servido no hotel.

Minha viagem teve o patrocínio de Belga Hotel.

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

Escreva um comentário