Valle de la Luna: o imperdível do Atacama

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Atualizado em 20 de abril de 2020

O Valle de la Luna é um dos lugares mais incríveis no Atacama. Mas antes, eu preciso lhe dizer algumas coisas sobre esse deserto. Encarar o Atacama não é brincadeira. Mesmo contando com todos os artifícios que a modernidade nos proporciona, o calor do dia e o frio da noite serão desafios que você obrigatoriamente terá que vencer. Isso, sem falar na sequidão que invariavelmente lhe acompanhará.

Aqui, no deserto do Atacama tudo parece assim, sem vida, e não é pra menos. Nesta terra, onde os recordes são muito mais que números impressionantes, os extremos que fazem desse lugar um apaixonante destino, também complicam muito a história de qualquer ser vivo.

Para ter uma ideia, veja só alguns dos mais espantosos números do Atacama: ele é considerado o deserto mais alto do mundo, sempre acima dos 2.400 metros de altitude; é, também, o deserto mais seco do planeta, com áreas onde não chove há mais de 23 milhões de anos; seu território, que começa em Paracas, no Peru, cobre todo o norte do Chile e tem mais de mil quilômetros; e, para encerrar, em um único dia a temperatura pode variar de zero a 40 graus.

Valle de la Luna: o imperdível do Atacama

O desafiador deserto do Atacama.

Nessas condições, pequenos oásis como San Pedro de Atacama se tornam o refúgio ideal para quem chega aqui. O vilarejo tem pouco mais de três mil moradores e condições ideais para fazer seus dias no deserto mais confortáveis e inesquecíveis.

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Em San Pedro de Atacama, o passeio mais famoso e mais solicitado é o que percorre parte do que eles convencionaram chamar de Valle de la Luna, uma referência ao acidentado relevo lunar. Montanhas arenosas, imensos paredões de sal e dunas gigantescas estão por onde os seus olhos mirarem. Essa paisagem seca, que se transforma dia após dia, inacreditavelmente já foi coberta pelo gelo dos glaciares, que desapareceram depois que a Cordilheira dos Andes se ergueu, como resultado do atrito entre placas tectônicas.

Valle de la Luna: o imperdível do Atacama

Lagos e riachos que já não existem formaram a paisagem desse lugar.

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Esteja preparado para fritar.

Como é o passeio ao Valle de la Luna

O tour guiado até o Valle de la Luna sempre começa no final da tarde, por volta das 16h. Esse horário é escolhido por duas razões: a mais óbvia é que, no fim da tarde, as temperaturas já não estão tão escaldantes, e a segunda é porque um dos grandes baratos desse passeio é ver o pôr do sol sobre o deserto. É de arrepiar.

Saindo do centro, a viagem dura menos de 15 minutos de carro. A primeira parada é na portaria do Valle, onde pago CLP 2.000 pela entrada. Aqui há banheiros e uma pequena lanchonete. O carro avança por mais cinco minutos e para. A primeira trilha vai me levar até à Cordilheira de Sal, formada a partir da movimentação do terreno onde ficava um antigo lago. As suas formações curiosas e a sua variação de cores – já que ela tem muitos minerais de origem vulcânica – merecem um tempo de sua observação. Ah, antes que me esqueça, os pontinhos brancos que você avistar não são sal, mas gesso.

Nessa trilha, avisto ainda a Duna Grande, uma imensidão de areia que escorre do alto até o tocar o chão. Curiosamente, essa duna não se movimenta ao sabor dos ventos, como de costume. Isso se deve, segundo os estudiosos, ao fato de que ela está sentada sobre uma rocha.

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A trilha que vai ate à Cordilheira de Sal.

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A Duna Grande.

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O Anfiteatro.

De longe vejo o Anfiteatro, uma enorme formação rochosa arredondada que lembra mesmo um estádio de futebol ou o Coliseu, em Roma. Nele e em todas as rochas ao redor de mim as camadas funcionam como linhas do tempo, por onde os cientistas identificam também a variação de temperatura no deserto ao longo dos séculos.

Volto pro carro e sigo por mais alguns minutos. Logo estou em frente às Três Marias, um conjunto de formações rochosas que se ergue do nada. Apesar de serem três, uma delas já não tem a mesma altura que as demais, graças a um turista que resolveu, por conta própria e sem autorização, escalá-la. Detido e deportado, o infeliz não poderá retornar ao Chile enquanto viver. Entretanto, sua façanha será vergonhosamente lembrada para sempre.

Ao lado das Três Marias, está uma pequena rocha que parece ser a cabeça de um dinossauro saindo da terra. É engraçado.

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As Três Marias.

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Será um dinossauro?

Daqui, volto para o carro, que segue até o cânion onde está a Cueva de Sal. Ando pelo caminho aberto por um rio há milhões de anos e vejo seu rastro deixado nos paredões. Me sinto pequeno diante de tanta grandeza. Depois de 20 minutos de caminhada, chego à tal caverna e caminho por ela até encontrar a luz do outro lado. A caminhada é leve, mas há momentos em que é preciso andar abaixado, quase de joelhos.

Antes de seguir para a próxima parada, tiro os tênis. A areia fofa do leito do antigo rio toca meus pés como se os massageasse. Estou, de fato, em contato com esse mundo árido e fascinante.

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O caminho pelo cânion: aqui corria um rio a milhões de anos.

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A entrada da Cueva de Sal.

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O interior da caverna.

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Contato direto.

O Valle de la Muerte

Sigo, então, para o Valle de la Muerte. Este lugar recebeu esse nome por três possíveis razões: a primeira remete ao tempo dos espanhóis, quando eles jogavam as cabeças dos inimigos aqui. A segunda, é atribuída à péssima pronuncia do cientista francês que queria chamar o lugar de Valle de Marte. Por fim, acredita-se que o nome se deve ao fato de que muitas pessoas se perdiam no deserto e acabavam morrendo aqui.

Por volta das 20h, chego a um dos pontos mais altos do Valle para apreciá-lo de cima. Apesar de tarde, ainda está claro. A imensidão é linda. As montanhas áridas avançam até onde meus olhos não alcançam mais. Aos poucos o sol se encaminha para seu lugar de repouso. Me despeço do astro-rei, e a sensação é incrível, revigorante. Deixo o Valle de la Luna com um céu lindo, o mais lindo de todos.

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O Valle de la Muerte.

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O fantástico pôr do sol sobre o deserto.

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Quanto custa | A entrada no Valle de la Luna custa CLP 2.000. Estudante com carteirinha paga CLP 1.500.

Quem leva | Há diversas empresas que fazem esse passeio. Com saídas diárias, sempre por volta das 16h, ele não deve custar mais do que CLP 8.000. Eu fiz os passeios no Atacama com a Turismo Kaulles e com a El Relincho e gostei bastante do serviço oferecido.

Como chegar | O Valle de la Luna está a apenas 13 quilômetros do centro de San Pedro de Atacama e é possível chegar aqui sozinho. De carro, de bicicleta, a pé ou de excursão os cuidados e as exigências serão iguais: pagar a tarifa na entrada e nunca se desviar dos pontos demarcados.

O aeroporto mais próximo de San Pedro de Atacama fica na cidade de Calama, a pouco mais de 100 quilômetros. Um tíquete saindo do aeroporto de Guarulhos para cá custa, em média, USD 350, e a passagem de ônibus na Pulmann Bus, de Calama para San Pedro de Atacama, custa cerca de CLP 9.000.

Outra opção é voar até Santiago e seguir a viagem de ônibus, mas se prepare: serão mais de 1.600 quilômetros para percorrer, o que não vale nem um pouco a pena para quem está com pouco tempo. A Tur Bus tem partidas de Santiago para San Pedro de Atacama com passagens que custam entre CLP 23.800 e 45.000.

Um roteiro muito bacana e que lhe dará uma visão mais completa dessa região é conciliar San Pedro de Atacama com uma jornada de três dias pelo Salar de Uyuni, na Bolívia. Os detalhes dessa viagem eu conto em Viagem de três dias pelo Salar de Uyuni.

Onde ficar | A regra número um para economizar com hospedagem em San Pedro de Atacama é a antecedência. A cidade tem muitas opções baratas, mas, como viajantes do mundo inteiro desejam esse lugar, se você deixar para fazer a reserva em cima da hora é provável que pague caro ou que fique mais afastado do Centro.

Veja as minhas dicas em Onde se hospedar em San Pedro de Atacama.

Eu me hospedei no Hotel San Pedro de Atacama. Ele fica no Centro e é ideal para quem deseja descansar depois de se aventurar pelo deserto. Com quartos muito confortáveis, o hotel tem piscina e um farto café da manhã. Negociando, consegui baixar o custo da diária para USD 100 em quarto triplo. Foi a melhor escolha.

Valle de la Luna: o imperdível do Atacama

A piscina do Hotel San Pedro de Atacama.

O que levar | A umidade no deserto do Atacama é quase sempre inferior a de 10%, portanto você vai precisar se hidratar muito além do normal. Eu lhe aconselho a não subestimar essa informação, pois você corre o risco de sentir muita sede pelo trajeto. Nessa situação, você pode abusar sem medo de exagerar. Protetor solar, roupas leves, um boné e óculos de sol também são indispensáveis. Uma lanterna ou um celular poderão lhe ajudar na caverna.

Visto e documentos | Não é necessário visto para entrar no país, e o tempo de permanência é de até 90 dias. Brasileiros podem apresentar o passaporte ou a carteira de identidade, desde que ela esteja em bom estado de conservação. Não há exigência de vacinação para nenhuma doença, independentemente do motivo da viagem.

Veja todos os posts sobre o Atacama

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um viajante apaixonado pelas coisas desse mundo. Um jornalista que adora contar boas histórias e compartilhar informações de viagem. Meu propósito de vida é ajudar outras pessoas a conhecerem lugares novos e a viverem experiências inesquecíveis.

17 Comentários

  1. Avatar

    Altier, bom dia campeão. Sou fã do site, inclusive já postei aqui minha viagem ao Uruguai. Estou procurando algum tópico sobre ida ao chile de carro, poderia me indicar aqui ??

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    Viagem inesquecível . Lugar maravilhoso. De Campos do Jordão a San Pedro. Hotel de brasileira, jantar no Adobe. Geiser del Tatio, Vale de lá Luna, paisagens lindas demais. Voltarei…

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    Oi Altier, você escreve bem demais! Deu ainda mais vontade de ir para o Atacama. Estamos planejando essa empreitada em janeiro 2016 de carro! Você acha que vale a pena pagar o passeio com operadora ou tudo bem fazer por conta?
    Obrigada por compartilhar!
    Ludmila

    • Altier Moulin

      Oi Ludmila,

      Primeiro obrigado pelo elogio e por acompanhar o blog. Bom, ir ao Atacama de carro é uma aventura e tanto. Poder escolher um roteiro alternativo e fazer tudo num ritmo tranquilo não tem preço. O grande – e sério – problema é que o deserto apresenta muitos desafios. Não são raros os casos de pessoas que se perdem e passam dias por lá. Há casos de morte, inclusive (veja isso: http://goo.gl/e88eVz).

      O Atacama não é brincadeira e muito menos para quem vai despreparado. Pense na situação em que o celular não tem sinal e até mesmo o GPS para de funcionar. Se quiser fazer tudo em seu carro, contrate um bom guia. Se ficar muito caro, opte pelos passeios em grupo. Voltar para casa tranquilo vale muito mais que qualquer aventura. 🙂

      Um abraço.

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    Gostaria de algumas dicas de um passeio de carro de So paulo ao Chile, e qual a menor distancia de São Paulo ao Chile ou de São Paulo ao Peru?

    • Altier Moulin

      Oi Eliseu,

      As distâncias são bem próximas. Vai depender do seu gosto mesmo. Sugiro que faça uma busca detalhada levando em consideração quantos dais você tem para a viagem. Assim você poderá pensar em paradas estratégicas como, por exemplo, Em Campo Grande e Bonito, no Mato Grosso do Sul, e passando pela Bolívia.

      Um abraço.

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    Caro Altier,
    Vc chegou a se informar sobre o Sandboarding no Valle de la Muerte (no seu relato vc passa pelo Vale mas não fez sandboarding); Passeio aos Geysers del Tatio e Passeio Astronômico??
    Estou pesquisando, em outros relatos que falam dessas opções, mas as informações são poucas.

    • Altier Moulin

      Oi Marcos,

      Vamos lá. O sandboarding está suspenso temporiariamente – pelo menos foi o que algumas agências me informaram. Não fui aos geisers de Tatio porque tinha acabado de chegar dos geisers que ficam no lado boliviano, dai preferi não repetir. O tour astronômico eu não fiz, pois não é muito minha praia. E também é bastante caro. :/

      Um abraço.

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