Lagoa de Guatavita e a lenda do El Dorado

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Atualizado em 23 de abril de 2018

Quando visitei o Museo del Oro de Bogotá, uma das peças me chamou a atenção. Era um tipo de jangada moldada em ouro e cheia de detalhes, que estava solitária em um salão escuro, cercada de curiosos. Todos queriam vê-la e fotografá-la do melhor ângulo. Um pouco mais tarde, descobri que ela é o símbolo maior de um fato muito interessante, que alguns acreditam ser apenas uma lenda. Mas, para te contar essa história, preciso viajar 60 quilômetros partindo de Bogotá até a cidade de Sesquile. E lá que está a Lagoa de Guatavita, o lago sagrado dos colombianos.

Lagoa de Guatavita e a lenda do El Dorado

Saio cedo e sigo pela Via a La Calera. Esta é uma bonita e arborizada rodovia que, nos fins de semana, é tomada por ciclistas em ambos os sentidos. Como não há ciclovia nesse trecho, dirigir desviando-se de bicicletas pode ser uma grande aventura. Por isso, o cuidado deve ser dobrado.

Em La Calera, paro em uma das barraquinhas para tomar café da manhã. As opções partem de uma simples arepa – um tipo de pão feito de milho –, e incluem água de panela – uma espécie de chá feito à base de açúcar caramelizado. Além disso, um caldo de costela bovina, os tradicionais ovos mexidos, queijo branco e café com leite. Eu paguei apenas COP 6.000 e só não experimentei o caldo de costela, que me pareceu fantástico. As barracas são muito simples, mas o atendimento é excepcional. Comer aqui é uma grande experiência a 2.694 metros acima do nível do mar.

Lagoa de Guatavita e a lenda do El Dorado

Réplica de La balsa de la ofrenda, exposta no Museu del Oro de Bogotá.

Lagoa de Guatavita e a lenda do El Dorado

O café da manhã em La Calera.

Sigo viagem. A Lagoa de Guatavita fica um tanto escondida, é verdade, mas há placas indicando o caminho nos últimos 20 quilômetros. Os três restantes não calçados, porém facilmente transitáveis.

O Parque Natural Laguna de Guatavita, onde está o lago, tem 693 hectares e, para entrar nele, é preciso pagar COP 13.000. Acompanhado por um guia do parque, o grupo de visitantes do qual faço parte caminha pelas trilhas pavimentadas até o El Boquete. Essa é a entrada para a lagoa que foi escavada pelos espanhóis quando chegaram por aqui. Porém, o caminho original foi fechado por causa de um terremoto que aconteceu em 2008. Desde então, o nível da lagoa já subiu cinco metros.

A lenda da oferenda

Caminhamos por aproximadamente uma hora sob um frio intenso. Finalmente vemos, de fato, as águas sagradas da Lagoa de Guatavita. Atualmente, ela tem 30 metros de profundidade, seguindo o formato cônico das montanhas ao seu redor. Entretanto, acredita-se que o volume de água era muito maior. Como não há rios ou riachos ao redor, a lagoa se alimenta apenas da água das chuvas e do lençol freático. O tom verde da água se dá devido às algas que nela fazem morada, explicou o nosso guia.

Mas por que essa lagoa no meio do nada é tão especial? É que a história colombiana conta que o povo Chibcha, da etnia muisca, usava as águas da lagoa para fazer suas oferendas e seus rituais religiosos. Esse povo lançava nas margens da lagoa, sempre de costas, as peças que produziam em ouro. E, somente o sacerdote podia ir até o ponto mais profundo, utilizando la balsa de  la ofrenda para realizar os rituais mais especiais. A lenda do El Dorado conta que o cacique muisca entrava nessa balsa, feita de madeira, e era banhado em ouro. Depois disso, mergulhava carregando os tesouros para deixá-los na água como oferenda e símbolo de adoração a Chie, a deusa das águas.

Lagoa de Guatavita e a lenda do El Dorado

Nosso guia dá as primeiras instruções sobre o passeio.

Lagoa de Guatavita e a lenda do El Dorado

As trilha pavimentadas.

Lagoa de Guatavita e a lenda do El Dorado

O caminho alternativo aberto depois do terremoto.

Com a chegada dos colonizadores, esse povo perdeu a sua identidade. Eles foram catequizados e obrigados a abandonar seus costumes, sua religião e sua língua. Hoje, as autoridades incentivam o resgate do dialeto muisca nas escolas da região.

Além disso, quando chegaram aqui, os ambiciosos conquistadores do Novo Mundo descobriram que a lagoa estava entupida de ouro. Com a autorização da Coroa Espanhola, iniciaram o processo de escavação para drenar a lagoa – sim, é um absurdo. Como não possuíam equipamentos e pessoal em quantidade adequada, estima-se que os espanhóis tenham tirado – apenas – cerca de duas mil peças de ouro da lagoa. Impedidos e expulsos pelos britânicos, os espanhóis fugiram deixando para trás uma quantidade imensurável do metal mais cobiçado da época.

Entretanto, diferentemente do que imaginavam, os britânicos não chegaram por aqui para defender terras alheias. Depois de expulsar os concorrentes, eles voltaram com equipamentos e pessoal na medida certa para concluir o trabalho. Assim, a Lagoa de Guatavita foi agredida e quase não resistiu à ação humana. Hoje, protegida, ela começa a se recuperar de seus traumas.

Lagoa de Guatavita e a lenda do El Dorado

A lagoa vista do alto.

Lagoa de Guatavita e a lenda do El Dorado

El boquete: abertura feito pelos espanhóis para drenar a lagoa.

Planeje sua visita à Lagoa de Guatavita

Como chegar | De carro, siga pela Via a La Calera até o povoado de Guatavita, onde encontrará placas indicativas. Há cobrança de pedágio no valor de COP 7.600 em ambos os sentidos. De Bogotá, partem ônibus até o povoado de Guatavita. Daqui, tome um táxi até a Lagoa, já que não existe transporte público que faz essa rota. Para descer da lagoa e voltar ao ponto de partida, você pode fazer uma caminhada de três quilômetros – que não achei nada interessante – ou tomar um micro-ônibus pagando apenas COP 1.000.

Lagoa de Guatavita e a lenda do El Dorado

Quanto custa | A entrada no parque custa COP 13.000 e inclui um serviço de guia – exclusivamente em espanhol –, sem o qual você não pode fazer o passeio.

O que levar | Não se esqueça de colocar na sua mochila água, casaco, repelente (caso você se incomode com insetos), protetor solar (apesar do frio, o sol é forte nessa área) e sua câmera fotográfica.

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

16 Comentários

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    Boa tarde. Ótimo seus relatos. Vamos em 5 casais de novembro. Faremos Bogota , Cartagena e San Andrés.Seu alugar um carro consigo fazer a laguna e a Catedral em um dia ? Abraço

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    Fala meu amigo, irei nesse mesmo roteiro do amigo acima. Gostaria de saber se apenas com GPS é tranquilo ir? Não tem problema, perigo? Aqui no RJ não se pode confiar muito no GPS. Queríamos ir à Catedral e a Laguna em um dia também. Ah e onde você alugou o carro? Abraços.

    Ps. ótimo relato

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    ola boa tarde, sabe me informar Lagoa de Guatavita esta aberto no periodo de março 10 a 17 de março aproximadamente, ou tem alguma restriçao de funcionamento?

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    Oi Altier!
    Os ônibus que vão até a Laguna imagino que devem sair da rodoviária de Bogotá. Pelo o que entendi se deve pegar o ônibus até Sesquile e de lá pegar um táxi até a Laguna. É isso? O retorno para Bogotá de ônibus é tranquilo no que diz respeito a frequência de ônibus, enfim se não há dificuldade para sair da Laguna.
    Um abraço!

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    Bom dia, como faço para contratar esse guia do parque e comprar o ingresso? Na hora mesmo, ou compro com antecedência? Obrigada 🙂

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    Bom dia, tive o privilégio de conhecer este lugar, realmente é uma obra de Deus, que coisa mas linda. Quero agradecer pelo este belíssimo resumo, até porque o guia fala espanhol e tive um pouco de dificuldade de interpretação. Mesmo assim o guia explica com uma maior naturalidade e estar de parabéns.

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