A beleza natural da Baía de Wulaia

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Atualizado em 20 de abril de 2020

Poucas pessoas já pisaram neste pedacinho de terra que fica quase no fim do mundo. Esta é a extremidade sul do continente americano. Entre os privilegiados, está Charles Darwin, naturalista britânico que chegou aqui a bordo do navio Beagle. Ele queria conhecer melhor a fauna, a flora e os primeiros habitantes da Ilha Navarino, onde está a Baía de Wulaia.

Desde 2007, a ilha é uma concessão do governo chileno à Cruzeiros Australis. A empresa opera navios no extremo sul do continente, na região que ficou conhecida como Terra do Fogo. Aqui, onde tudo era gelo até alguns milênios, a vida se desenvolve de forma curiosa e quase inacreditável.

A bordo do navio de expedições Stella Australis, na programação de hoje estão a Baía de Wulaia e o Cabo de Hornos. Este é considerado o ponto mais mítico desta viagem. O desembarque na baía é tranquilo e logo já estou pronto para começar a explorar a ilha. Aqui, tenho duas opções: fazer uma trilha subindo até 180 metros e ver todo esse pedaço de mar do alto ou caminhar pela praia em um passeio leve e sem muita aventura. Como nessa viagem paro duas vezes na Baía de Wulaia, experimento as duas opções.

A beleza natural da Baía de Wulaia

As primeiras explicações sobre a Baía de Wulaia.

A beleza natural da Baía de Wulaia

A trilha pela praia é bem tranquila, diferente da que sobe o monte.

A beleza natural da Baía de Wulaia

Trilha na Baía de Wulaia

Subir o pequeno monte é bem interessante. A trilha tem um grau de dificuldade entre médio e alto, mas o grande ponto de atenção é que o caminho é muito escorregadio, já que por aqui a umidade é extremamente alta com chuva, neve e ventos constantes.

A paisagem é linda. Pequenos riachos escorrem da montanha e são vencidos com a ajuda de pontes de madeira. A vegetação, na primavera, começa a se revigorar depois do tenebroso inverno patagônico. Nas árvores, musgos crescem sem fim e em algumas árvores percebo uma deformação nos caules. Diana Martin, a guia da expedição, conta que elas são causadas por um fungo que ataca as árvores. Para se defenderem, elas cobrem o fungo criando algo como se fosse um imenso tumor. O incrível é que o fungo não morre. Vivo, solta frutos de tempos em tempos para nos lembrar de que a vida na Patagônia é muito mais rica do que parece ser.

Avanço mais alguns metros até a primeira parada de descanso. Com o fôlego recuperado, sigo até encontrar um lago artificial criado por castores. Trazidos por fazendeiros interessados em vender a pele do bicho para a indústria da moda, eles se transformaram em praga depois de terem sido abandonados nas ilhas e fiordes da Patagônia. Hoje, é possível ver clareiras no meio do bosque, que demorará décadas para se recuperar.

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A resistente vida patagônica.

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O rastro dos castores.

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Lago artificial criado por castores.

Outra praga deixada pelo homem na Baía de Wulaia, especialmente na Ilha Navarino, é o porco doméstico. Aqui havia uma fazenda, mas, quando os seus donos decidiram se mudar para Punta Arenas, eles simplesmente abandonaram aos animais na ilha. Soltos na natureza, eles se reproduziram e hoje são percebidos pelos buracos que fazem na vegetação em busca de alimento.

Mais alguns metros de caminhada e chego ao mirante. Boa parte da Baía de Wulaia está ao alcance dos meus olhos. As ilhas Coihue, Conejos, Button, Hostel, Aguila e o Monte King Scott estão à minha frente. Sento-me em um dos bancos feitos com troncos de madeira e todos fazemos silêncio. É hora de ouvir a natureza.

Para quem acha que subir é difícil, a descida pode ser ainda pior com um chão tão escorregadio assim. Me agarro nos trocos e em algumas cordas que a equipe de expedição usa como apoio e chego à enseada sem tombos, diferentemente de muitos outros que caíram pelo caminho, mas sem nada grave.

A beleza natural da Baía de Wulaia

Trilha de subida ao monte.

A beleza natural da Baía de Wulaia

Vista da Baía de Wulaia.

A beleza natural da Baía de Wulaia

É hora de visitar a única casa da ilha. Na verdade ela era a sede de uma antiga estação de rádio que controlava a navegação e passava orientações sobre o clima na região. Hoje, restaurada, ela é uma espécie de centro de visitantes com alguns painéis e objetos interpretativos sobre a história da ilha e da Baía de Wulaia. Entre eles, uma réplica da canoa utilizada pelos Yámanas, os aborígenes que habitavam esta região e que eram considerados nômades: eles navegavam com destreza entre as ilhas da Terra do Fogo e só paravam para caçar, pescar e se alimentar.

Aliás, a ilha Navarino não é apenas um paraíso da natureza, ela é cheia de vestígios arqueológicos desse antigo povo que vivia nu, sem qualquer outra proteção a não ser a gordura de animais marinhos que untava a pele, tornando-a impermeável e mais resistente ao rigoroso frio do extremo sul americano. Alcançados por missionários estrangeiros, os Yámanas foram aculturados e começaram a morrer quando passaram a usar roupas.

A beleza natural da Baía de Wulaia

Programe sua visita à Baía de Wulaia

Quando ir | A temporada de cruzeiros nessa parte do mundo começa em setembro e vai até abril, mas os melhores meses são de novembro a janeiro, quando há mais baleias, pinguins e outros animais na região.

Como chegar | A Cruzeiros Australis é a única empresa de turismo autorizada a atracar seus navios na Baía de Wulaia. O cruzeiro-expedição parte de Punta Arenas e de Ushuaia. Há viagens de três, quatro e sete dias que percorrem parte do Estreito de Magalhães e os belos fiordes patagônicos.

Quanto custa | A viagem no estilo all inclusive – isso inclui bebidas alcoólicas – custa a partir de USD 1.189 e varia de acordo com a quantidade de dias e com o navio escolhido.

O que levar | Esteja preparado para o frio. O ideal é usar agasalhos no estilo de camadas, de modo que você possa tirá-los à medida que caminha e que seu corpo se aquece. Uma segunda pele, um casaco intermediário e um impermeável completam as três camadas. O mesmo vale para as pernas. Use sapatos de trekking – ou equivalentes – que sejam impermeáveis e confortáveis. Leve um par de luvas, gorros e o que achar conveniente para se proteger. Óculos de sol e protetor solar são indispensáveis.

Minha viagem teve o patrocínio de Cruzeiros Australis.

SOBRE O AUTOR

Sou jornalista, capixaba e apaixonado pelo universo viajante. Sempre gostei de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Quando criança, sonhava em viajar pelo mundo e, já adulto, isso virou um propósito de vida.

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