A beleza natural da Baía de Wulaia

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Atualizado em 7 de março de 2018

Poucas pessoas já pisaram neste pedacinho de terra que fica quase no fim do mundo. Esta é a extremidade sul do continente americano. Entre os privilegiados, está Charles Darwin, naturalista britânico que chegou aqui a bordo do navio Beagle. Ele queria conhecer melhor a fauna, a flora e os primeiros habitantes da Ilha Navarino, onde está a Baía de Wulaia.

Desde 2007, a ilha é uma concessão do governo chileno à Cruzeiros Australis. A empresa opera navios no extremo sul do continente, na região que ficou conhecida como Terra do Fogo. Aqui, onde tudo era gelo até alguns milênios, a vida se desenvolve de forma curiosa e quase inacreditável.

A bordo do navio de expedições Stella Australis, na programação de hoje estão a Baía de Wulaia e o Cabo de Hornos. Este é considerado o ponto mais mítico desta viagem. O desembarque na baía é tranquilo e logo já estou pronto para começar a explorar a ilha. Aqui, tenho duas opções: fazer uma trilha subindo até 180 metros e ver todo esse pedaço de mar do alto ou caminhar pela praia em um passeio leve e sem muita aventura. Como nessa viagem paro duas vezes na Baía de Wulaia, experimento as duas opções.

A beleza natural da Baía de Wulaia

As primeiras explicações sobre a Baía de Wulaia.

A beleza natural da Baía de Wulaia

A trilha pela praia é bem tranquila, diferente da que sobe o monte.

A beleza natural da Baía de Wulaia

Trilha na Baía de Wulaia

Subir o pequeno monte é bem interessante. A trilha tem um grau de dificuldade entre médio e alto, mas o grande ponto de atenção é que o caminho é muito escorregadio, já que por aqui a umidade é extremamente alta com chuva, neve e ventos constantes.

A paisagem é linda. Pequenos riachos escorrem da montanha e são vencidos com a ajuda de pontes de madeira. A vegetação, na primavera, começa a se revigorar depois do tenebroso inverno patagônico. Nas árvores, musgos crescem sem fim e em algumas árvores percebo uma deformação nos caules. Diana Martin, a guia da expedição, conta que elas são causadas por um fungo que ataca as árvores. Para se defenderem, elas cobrem o fungo criando algo como se fosse um imenso tumor. O incrível é que o fungo não morre. Vivo, solta frutos de tempos em tempos para nos lembrar de que a vida na Patagônia é muito mais rica do que parece ser.

Avanço mais alguns metros até a primeira parada de descanso. Com o fôlego recuperado, sigo até encontrar um lago artificial criado por castores. Trazidos por fazendeiros interessados em vender a pele do bicho para a indústria da moda, eles se transformaram em praga depois de terem sido abandonados nas ilhas e fiordes da Patagônia. Hoje, é possível ver clareiras no meio do bosque, que demorará décadas para se recuperar.

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A resistente vida patagônica.

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O rastro dos castores.

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Lago artificial criado por castores.

Outra praga deixada pelo homem na Baía de Wulaia, especialmente na Ilha Navarino, é o porco doméstico. Aqui havia uma fazenda, mas, quando os seus donos decidiram se mudar para Punta Arenas, eles simplesmente abandonaram aos animais na ilha. Soltos na natureza, eles se reproduziram e hoje são percebidos pelos buracos que fazem na vegetação em busca de alimento.

Mais alguns metros de caminhada e chego ao mirante. Boa parte da Baía de Wulaia está ao alcance dos meus olhos. As ilhas Coihue, Conejos, Button, Hostel, Aguila e o Monte King Scott estão à minha frente. Sento-me em um dos bancos feitos com troncos de madeira e todos fazemos silêncio. É hora de ouvir a natureza.

Para quem acha que subir é difícil, a descida pode ser ainda pior com um chão tão escorregadio assim. Me agarro nos trocos e em algumas cordas que a equipe de expedição usa como apoio e chego à enseada sem tombos, diferentemente de muitos outros que caíram pelo caminho, mas sem nada grave.

A beleza natural da Baía de Wulaia

Trilha de subida ao monte.

A beleza natural da Baía de Wulaia

Vista da Baía de Wulaia.

A beleza natural da Baía de Wulaia

É hora de visitar a única casa da ilha. Na verdade ela era a sede de uma antiga estação de rádio que controlava a navegação e passava orientações sobre o clima na região. Hoje, restaurada, ela é uma espécie de centro de visitantes com alguns painéis e objetos interpretativos sobre a história da ilha e da Baía de Wulaia. Entre eles, uma réplica da canoa utilizada pelos Yámanas, os aborígenes que habitavam esta região e que eram considerados nômades: eles navegavam com destreza entre as ilhas da Terra do Fogo e só paravam para caçar, pescar e se alimentar.

Aliás, a ilha Navarino não é apenas um paraíso da natureza, ela é cheia de vestígios arqueológicos desse antigo povo que vivia nu, sem qualquer outra proteção a não ser a gordura de animais marinhos que untava a pele, tornando-a impermeável e mais resistente ao rigoroso frio do extremo sul americano. Alcançados por missionários estrangeiros, os Yámanas foram aculturados e começaram a morrer quando passaram a usar roupas.

A beleza natural da Baía de Wulaia

Programe sua visita à Baía de Wulaia

Quando ir | A temporada de cruzeiros nessa parte do mundo começa em setembro e vai até abril, mas os melhores meses são de novembro a janeiro, quando há mais baleias, pinguins e outros animais na região.

Como chegar | A Cruzeiros Australis é a única empresa de turismo autorizada a atracar seus navios na Baía de Wulaia. O cruzeiro-expedição parte de Punta Arenas e de Ushuaia. Há viagens de três, quatro e sete dias que percorrem parte do Estreito de Magalhães e os belos fiordes patagônicos.

Quanto custa | A viagem no estilo all inclusive – isso inclui bebidas alcoólicas – custa a partir de USD 1.189 e varia de acordo com a quantidade de dias e com o navio escolhido.

O que levar | Esteja preparado para o frio. O ideal é usar agasalhos no estilo de camadas, de modo que você possa tirá-los à medida que caminha e que seu corpo se aquece. Uma segunda pele, um casaco intermediário e um impermeável completam as três camadas. O mesmo vale para as pernas. Use sapatos de trekking – ou equivalentes – que sejam impermeáveis e confortáveis. Leve um par de luvas, gorros e o que achar conveniente para se proteger. Óculos de sol e protetor solar são indispensáveis.

Minha viagem teve o patrocínio de Cruzeiros Australis.

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

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