Ilha de Hornos: o mítico fim do mundo

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Atualizado em 20 de abril de 2020

Nas Américas, um dos pontos onde a presença do homem sempre será vulnerável é a Ilha de Hornos. O pedaço de terra mais ao sul do planeta. Essa ilha é mais austral do que o Cabo da Boa Esperança, na África do Sul, e do que a última ilha da Nova Zelândia. Depois daqui, não há nenhum pedaço de terra. A não ser a gelada e misteriosa Antártica, a 964 quilômetros. Mas o que nos faz desejar conhecer um lugar assim, tão longe de tudo?

A verdade é que todo viajante é fascinado por extremos e por marcos que representam a superação de limites. Todos queremos chegar a terras distantes, conhecer a montanha mais alta, nadar no rio mais bonito, visitar as praias mais charmosas. Isso, e experimentar as comidas mais exóticas.

Alcançar os pontos mais distintos do planeta é o que tem levado, durante milênios, o homem a desafiar os seus próprios limites. Com essa motivação, os antigos navegadores ousaram descobrir novas terras. E, assim é comigo e com você, que nos aventuramos por um mundo cheio de surpresas.

Ilha de Hornos: o mítico fim do mundo

As primeiras imagens da Ilha de Hornos.

Ilha de Hornos: o mítico fim do mundo

A caminho do último pedaço de terra antes da Antártica.

Nessa região, onde se acreditava existir um continente tão grande que era impossível contorná-lo, está um dos mares mais agitados do mundo. O grande Mar de Drake separa a América da Antártica e fica exatamente na ligação entre os oceanos Pacífico e Atlântico. Ele tem esse nome em homenagem ao navegador inglês Francis Drake que, por incrível que pareça, nunca por ele navegou. Hoje, navios modernos partem de Punta Arenas, no Chile, e de Ushuaia, na Argentina, para navegar entre os fiordes da Terra do Fogo até chegar à Ilha de Hornos.

À bordo do navio de expedição Stella Australis, que refaz parte da rota feita por Fernão de Magalhães, navego pelo Estreito de Magalhães, e por outros canais como o Beagle, exclusivo para navios com bandeira chilena. Essa aventura de chegar ao ponto mais extremo do mundo você acompanha a partir de agora.

Ilha de Hornos: o mítico fim do mundo

O colorido do nascer do dia no Mar de Drake.

Ilha de Hornos: o mítico fim do mundo

A última porção de terra do continente americano.

Chegando ao fim do mundo

É terça-feira e o dia ainda não amanheceu, mas o Stella Australis já se aproxima da ilha mais mítica do continente sul-americano. É emocionante estar neste lugar e saber que pouquíssimas pessoas conseguiram vencer a fúria dessas águas tão agitadas: esta é a maior zona de naufrágios do mundo, com mais 800 navios registrados, mas há suspeitas de que o número seja muito maior.

Depois de apreciar o nascer do sol pela janela da minha cabine, decido me levantar. São 6h30 e daqui a pouco todos teremos que nos apresentar para o desembarque na Ilha de Hornos. Aqui, há três fatores muito importantes que decidirão sobre a possibilidade de descer na ilha: a velocidade do vento, a altura das ondas e a forma como elas chegam à praia. Somente com esses três vetores favoráveis é que poderei pisar a ilha mais desejada da navegação mundial.

O dia parece ótimo. O sol brilha entre algumas nuvens, o vento não ultrapassa os 40 km/h e o mar parece calmo, apesar de o navio balançar muito em um movimento de vai e vem, da esquerda para a direita. Depois de fazer o reconhecimento do terreno e das condições na praia, o chefe da expedição confirma: vamos desembarcar. Fico eufórico. Preciso apenas esperar as instruções de descida para colocar o pé no fim do mundo.

Ilha de Hornos: o mítico fim do mundo

A mítica Ilha de Hornos.

Ilha de Hornos: o mítico fim do mundo

Durante séculos, contornar o Cabo de Hornos foi o maior obstáculo de navegadores do mundo todo.

Ilha de Hornos: o mítico fim do mundo

O extremo sul de todos os continentes. Depois daqui, só a Antártica.

Uma área protegida

O Parque Nacional Cabo de Hornos tem pouco mais de 63 mil hectares. Aqui, vive uma família cujo oficial da marinha é o responsável pela manutenção do farol que orienta os navegadores. Além da casa onde moram, há apenas uma pequena capela e o belíssimo monumento ao albatroz.

Enquanto fotografo as belezas de Hornos ainda do navio, a má notícia chega pelos alto-falantes: o desembarque tinha sido cancelado devido a mudanças na maré. A variação chega a um metro e meio e, nessas condições, descer do navio e subir no bote pode ser perigoso e causar acidentes graves. Precavido, o capitão prefere não prosseguir.

O aviso soou como um balde de água fria sobre minha cabeça. Mais do que isso, confesso que me senti como se todo o gelo das montanhas ao redor caísse sobre mim. Aquilo era muito desanimador e eu estava muito desapontado. Porém, é por conhecer os limites da expedição que o Stella Australis nunca registrou um acidente. Desamparado, me agarro na história de que navegar pelo Cabo de Hornos é mais importante do que descer na ilha. Afinal de contas, todos os mais de dez mil homens que aqui perderam suas vidas tentaram alcançá-lo sem sucesso. Isso eu consegui.

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O farol, a casa e a vida na Ilha de Hornos.

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Nesta casa mora uma família que é responsável pela manutenção do farol que orienta os navegadores.

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Monumento: a escultura do albatroz homenageia os marinheiros sepultados no mar.

Visitar o Cabo de Hornos e navegar por estas águas foi muito mais do que uma aventura no fim do mundo. Para mim, essa foi uma viagem reflexiva e um marco na minha história de viajante. Para que você experimente um pouco do que este pedaço de terra representa, compartilho o poema de Sara Vial, gravado no monumento que homenageia todos os homens que foram sepultados no mar. A escultura do albatroz tem sete metros de altura e foi inaugurada em dezembro de 1992.

 “Sou o albatroz que te espera no fim do mundo.
Sou a alma esquecida dos marinheiros mortos que cruzaram
O Cabo de Hornos desde todos os mares da Terra.
Mas eles não morreram nas furiosas ondas, hoje voam em minhas asas
Até a eternidade, na última fenda dos ventos antárticos.

Programe sua viagem à Ilha de Hornos

Quando ir | A temporada de cruzeiros nesta parte do mundo começa em setembro e vai até abril, mas os melhores meses são de novembro a janeiro, quando há mais baleias, pinguins e outros animais na região.

Como chegar | De Punta Arenas e de Ushuaia partem os navios da Australis que chegam à Ilha de Hornos. Há viagens de três, quatro e sete dias que percorrem parte do Estreito de Magalhães e os belos fiordes patagônicos. Outras empresas oferecem a viagem partindo de Ushuaia.

Quanto custa | A viagem no estilo all inclusive – isso inclui bebidas alcoólicas – custa a partir de USD 1.189 e varia de acordo com a quantidade de dias e com o navio escolhido.

O que levar | Esteja preparado para o frio. O ideal é usar agasalhos no estilo de camadas, de modo que você possa tirá-los à medida que caminha e que seu corpo se aquece. Uma segunda pele, um casaco intermediário e um impermeável completam as três camadas. O mesmo vale para as pernas. Use tênis de trekking – ou equivalentes – que sejam impermeáveis e confortáveis. Leve um par de luvas, gorros e o que achar conveniente para se proteger. Óculos de sol e protetor solar são indispensáveis.

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Poucas pessoas têm esse carimbo no passaporte.

Minha viagem teve o patrocínio de Cruzeiros Australis.