O campo de concentração de Terezín

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Atualizado em 30 de junho de 2017

Terezín é um tipo de cidade que você não vai encontrar em qualquer lugar do mundo. Aqui, a simetria perfeita das ruas geometricamente exatas e as praças cheias de flores escondem a história de um terrível sofrimento humano. Por isso mesmo, visitar o antigo campo de concentração de Terezín, pertinho de Praga, na República Tcheca, é uma experiência dolorosa, daquelas que a gente jamais esquece, e, justamente por isso, é tão preciosa.

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Atualmente, esse antigo quartel nazista é um dos principais pontos de memória da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto na República Tcheca, e uma visita aqui é indispensável, principalmente se você for um interessado por esses temas.

Como o percurso é longo, eu vou dividir o texto em duas partes. Neste, eu conto como é a visita ao Pequeno Forte – Kleine Festung, em alemão -, que era a prisão de Terezín. Em A fortaleza de Terezín e a cidade quase perfeita, você vai saber mais sobre a fortaleza principal e como era a vida de seus moradores.

O campo de concentração de Terezín

Os barracões do pequeno forte: a prisão dentro da prisão.

O campo de concentração de Terezín

O emblemático portão onde se lê a frase “Arbeit Macht Frei”.

O campo de concentração de Terezín

A entrada principal do pequeno forte.

Transformada em gueto durante a Segunda Guerra Mundial, Terezín recebeu milhares de ciganos, comunistas, gays, presos políticos, judeus e praticantes de outras minorias religiosas de origem tcheca que, aqui, foram encarcerados e escravizados.

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Antes de cruzar os muros da fortaleza, ninguém poderia imaginar o que acontecia dentro de Terezín. Todo esse complexo era, na verdade, um campo de passagem, onde os prisioneiros aguardavam o momento de serem enviados a outros sítios nazistas, como Auschwitz, na Polônia, onde seriam assassinados. Mas claro que eles não sabiam disso.

As celas do pequeno forte

Geralmente, eram trazidos para o pequeno forte, os presos que deveriam ser punidos por má conduta no campo principal. A maioria era acusada de resistência ou desobediência às ordens nazistas.

Nos galpões da fortaleza menor, havia basicamente três tipos de celas. As mais comuns eram as coletivas, onde vários presos conviviam em um ambiente fechado, tendo que permanecer de pé dia e noite.

Nesses ambientes, muitas vezes, a única janela era coberta para que os presos não pudessem ver a luz do dia. Sem ventilação e sem um lugar para se deitar, os confinados só tinham acesso a um vaso sanitário e a um buraco que servia para comunicação com os soldados do lado de fora. Essas celas eram destinadas exclusivamente a judeus.

O campo de concentração de Terezín

Entrada de uma das celas destinadas aos judeus.

O campo de concentração de Terezín

Aqui, todos tinham que ficar de pé dia e noite.

Em outro tipo de cela coletiva, essa destinada a presos que mereciam uma punição mais branda, havia camas de três andares, mesas e bancos, mas não tinha colchão ou qualquer outro utensílio que pudesse os aquecer durante o sinistro inverno europeu. Nessas celas, havia ainda uma pia e um vaso sanitário, e os banhos eram tomados em ambientes compartilhados, do lado de fora. Aqui, geralmente, ficavam os presos políticos.

O campo de concentração de Terezín

Os móveis das celas destinadas aos presos políticos.

O campo de concentração de Terezín

A pia e o sanitário, que ficava em um cubículo fechado por uma porta.

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Um dos banheiros coletivos.

O campo de concentração de Terezín

O espaço para o banho.

Havia ainda as solitárias, celas onde eram colocados presos considerados os líderes da resistência dentro campo de concentração de Terezín. Sem contato com outros presidiários, eles permaneciam incomunicáveis por longos períodos.

O campo de concentração de Terezín

As solitárias de Terezín.

Morte em Terezín

Apesar de não ser propriamente um campo de extermínio, muitos presos perderam suas vidas dentro dessas muralhas.  Boa parte das pessoas trazidas para o campo de concentração de Terezín não resistia às péssimas condições de vida daqui. Doentes, fracos, mal alimentados e sem esperança de um futuro melhor, muitos encontravam a morte antes que os soldados os escolhessem.

Só que com o avanço da guerra, os nazistas decidiram matar o maior número de prisioneiros possível, e, assim, as sessões de execução passaram a ser mais frequentes em Terezín. O que antes acontecia em casos extremos com presos que se mostravam resistentes ao regime, virou rotina. Como não havia câmera de gás neste campo de concentração, os presos geralmente eram fuzilados, mas alguns também foram enforcados.

O campo de concentração de Terezín

A forca que matou inocentes em Terezín.

O campo de concentração de Terezín

Homenagem deixada por um visitante.

Na fortaleza, há dezenas de túneis que ligam uma parte à outra do pequeno forte, mas um, em especial, era temido por qualquer morador de Terezín. Conhecido como o Túnel da Morte, os presos sabiam que quem passasse por ele jamais voltaria vivo.

O túnel, que você também vai ver durante a visita, levava os presos para o campo de fuzilamento. Esse foi, sem dúvida, o lugar mais doloroso da visita. Aqui, três soldados, posicionados de frente para um muro de tijolos vermelhos, disparavam suas armas, levando embora o resto de vida que os prisioneiros carregavam.

Para você ter uma ideia, em 1942, o número de mortos dentro do gueto era tão alto que foi preciso construir um crematório que chegava a queimar 200 corpos por dia. Dos cerca de 140 mil judeus transferidos para cá, mais de 90 mil foram deportados para outros campos de concentração. Aproximadamente, 33 mil morreram em Terezín. As vítimas desse massacre são lembradas na escultura de Ladislav Chochole, que fica pertinho do campo de fuzilamento.

O campo de concentração de Terezín

O lugar onde os guardas se posicionavam para fuzilar os prisioneiros.

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O muro do campo de fuzilamento.

O campo de concentração de Terezín

O túnel da morte.

O campo de concentração de Terezín

A escultura Nameless, que homenageia as vítimas de Terezín.

Realidade mascarada

Embora a prisão de Terezín fosse realmente algo horrível, ela ainda não era a pior do Regime Nazista. Aqui, os presos tinham algumas regalias, como receber encomendas enviadas por parentes e amigos. Entretanto, eles jamais poderiam enviar algo para fora dos muros.

Essa tática usada pelo comando de Hitler não foi em vão, já que a ideia era mostrar Terezín como um lugar agradável, onde as pessoas eram bem tratadas e trabalhavam normalmente. Nesse esquema, os nazistas conseguiram, inclusive, enganar a Cruz Vermelha, que chegou a fazer uma vistoria no campo de concentração em 1944.

Nessa época, tudo foi mascarado: jardins foram plantados, casas pintadas e quartéis renovados. Os nazistas encenavam eventos sociais e culturais para os visitantes, e todo mundo era forçado a parecer feliz. Inclusive, na propaganda nazista, Terezín foi cinicamente descrita como uma cidade spa, um lugar onde idosos poderiam se aposentar em segurança. Mas, quando a visita acabou, os alemães retomaram as deportações dos prisioneiros.

O campo de concentração de Terezín

O pequeno forte era a prisão do campo de concentração de Terezín.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o campo de concentração de Terezín chegou a abrigar mais de 50 mil pessoas. Hoje, o número de habitantes da cidade não chega aos dois mil.

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Para lembrar as vítimas desse terrível massacre, um memorial chamado Cemitério Nacional foi erguido na área do pequeno forte. Aqui, nos 600 túmulos, estão sepultadas os corpos encontrados durante a libertação, em 1945, e as vítimas que morreram logo depois, antes de chegarem aos seus antigos lares.

Nesse imenso campo de tristeza, há uma grande cruz, em homenagem aos cristãos assassinados, e uma imensa estrela de Davi, dedicada aos judeus que morreram no campo de concentração de Terezín.

O campo de concentração de Terezín

O memorial às vítimas de Terezín.

O campo de concentração de Terezín

A cruz que lembra os cristãos mortos aqui.

O campo de concentração de Terezín

A Estrela de Davi, dedicada aos judeus que morreram no holocausto.

Planeje sua visita ao campo de concentração de Terezín

Quanto custa | A entrada para o campo de concentração de Terezín, que inclui o pequeno forte e todas as atrações da fortaleza principal, custa CZK 215. Estudantes pagam CZK 165.

Quando ir | Você pode visitar o campo de concentração de Terezín durante todo o ano, exceto nos dias 24 a 26 de dezembro e 1º de janeiro. O pequeno forte abre das 8h às 18h, de abril a outubro. Entre novembro e março a visita se encerra às 16h30. O Museu do Gueto, o columbário, o crematório, os barracões de Magdeburg e o quarto de oração abrem de 9h às 18h. Nos meses de novembro a março, eles fecham meia hora mais cedo.

Eu considero os meses de abril a setembro a melhor época para visitar a República Tcheca. Nesse período, as temperaturas são mais agradáveis, sem frio ou calor extremo. Mas se você quer ver neve, é melhor programar sua viagem para os meses de novembro a março, quando os termômetros estão sempre perto de zero.

Quem leva |Sem dúvida, estar acompanhado de um guia local faz toda a diferença nessa visita. Por isso, eu sugiro que você contrate um profissional para lhe explicar tudo o que vai ver. Uma boa opção é comprar um pacote para este passeio, incluindo também o transporte. Veja algumas opções aqui.

O campo de concentração de Terezín

O acompanhamento de um guia é essencial para compreender Terezín.

Como chegar | O campo de concentração de Terezín fica a 60 quilômetros de Praga. Para chegar aqui de ônibus, você pode pegar um dos veículos que partem da estação rodoviária Florenc. As partidas acontecem praticamente a cada. Para retornar a Praga, você pode pegar o mesmo veículo no itinerário contrário. As partidas também acontecem a cada hora, até às 17h. A passagem custa em torno de EUR 4 e você pode consultar os horários e comprar seu bilhete aqui.

O Aeroporto Internacional Praga Ruzyně (PRG) fica a 20 quilômetros do centro, e há várias linhas de ônibus que nos levam até ele. Algumas são a 100, 119, 191, 319 e 510. O Uber funciona bem na cidade e, como sempre, tem preços melhores que os táxis.

Onde ficar | Praga tem ótimas opções de hotéis e hostels. Eu passei pela cidade duas vezes e tive experiências de hospedagem bem diferentes, mas super agradáveis. Na primeira vez, eu fiquei no Bohemia Apartments, um apartamento bem espaçoso perto de tudo. Eu também me hospedei no Time Traveler, um hostel excelente com quartos novos, arejados e muito bem organizado. Você encontra outras opções de hospedagem aqui.

Visto e documentos | Brasileiros não precisam de visto para entrar e permanecer na República Tcheca por até 90 dias. Entretanto, será preciso apresentar seu passaporte dentro da validade. É muito importante saber que o seguro viagem é obrigatório, e que, sem ele, você pode ser impedido de entrar o país. Veja como comprar o seguro viagem com desconto.

Para ler | Quem quiser  saber mais sobre as histórias que se passaram em Terezín, o livro A mala de Hana conta uma intrigante história que une as memórias de Hana, uma criança tcheca que viveu no campo de concentração,  e um grupo de crianças em Tóquio, no Japão.

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SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

12 Comentários

  1. Patrícia Guimarães on

    Estive em Praga e fiquei sabendo deste lugar. Fui conferir e é exatamente como você falou.
    Lugar de muita reflexão.

    Obrigado por compartilhar.

  2. Inacreditável!
    Como o ser humano pode ser tão mal, né?!
    Ainda bem que lugares assim estão sendo preservados para que as gerações futuras possam conhecer e ver o que aconteceu no Holocausto.

  3. Nunca tinha ouvido falar de Terezín antes e estou incluindo essa cidade em meu roteiro.
    Adoro história e esse lugar é simplesmente imperdível.

    Parabéns pelo texto e pelas fotos.

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