Trem para as Nuvens: uma viagem de Salta para o céu

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Atualizado em 27 de julho de 2018

Como a maioria dos viajantes, eu sou fascinado por lugares emblemáticos e desafiadores. Por isso, resolvi fazer a viagem no Tren a las Nubes – Trem para as Nuvens, em português –, que começa em Salta , no norte da Argentina, e chega a 4.200 metros de altitude.

Trem para as Nuvens é, reconhecidamente, um dos percursos ferroviários mais altos do mundo. Ele passa por paisagens belíssimas, cruza vilarejos pitorescos e chega ao viaduto la Polvorilla, uma ponte de ferro considerada a maior obra da engenharia argentina no século 20.

Salta é, certamente, a cidade mais famosa dessa região. Ela é, também, a mais desenvolvida – mais que San Salvador de Jujuy – e está no roteiro de, praticamente, todo viajante que vem para essas bandas.

Há, basicamente, duas opções para quem quer fazer a viagem no Trem para as Nuvens: um percurso combina ônibus e trem e, o outro, apenas trem. Eu fiz o roteiro mais completo, que vai até San Antonio de los Cobres de ônibus para, depois, embarcar no Trem para as Nuvens.

Trem para as Nuvens: uma viagem de Salta para o céu

A mítica em um dos trens mais altos do mundo começa em Salta.

Trem para as Nuvens: uma viagem de Salta para o céu

É no povoado de San Antonio de los Cobres que, de fato, entramos no trem.

Qual opção escolher?

Eu escolhi esta opção porque queria conhecer os vilarejos no caminho de Salta a San Antonio de los Cobres. Para isso, eu precisei reservar um dia inteiro – saí às 7h da estação de Salta e só voltei depois das 19h.

A empresa que opera o trem é controlada pelo governo e o serviço é muito bom, seguro e confortável, mas, caro: eu paguei ARS 2.570 pela viagem.

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A estrada faz muitas curvas para vencer a Cordilheira.

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O trilho do trem e as montanhas de Salta.

Quem escolhe fazer apenas a viagem de trem precisa saber que ela é bem rápida: o trem sai de San Antônio de los Cobres, chega ao viaduto la Polvorilla e retorna para o ponto de partida. Tudo isso é feito em cerca de duas horas, sendo que o trem para por meia hora sobre o viaduto, onde você pode descer para tirar fotos.

Essa opção é mais barata, mas você terá que chegar a San Antonio de los Cobres por meios próprios.

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O ponto mais alto é exatamente sobre o viaduto.

Paisagens de tirar o fôlego

No caminho, a gente cruza o Parque Nacional de los Cardones, área ambiental criada para proteger uma espécie de cacto muito emblemática dessa região: há plantas com mais de 600 anos.

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Os cactos, hoje, são protegidos no Parque.

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Ele é muito valioso por causa da madeira.

O cardón – cacto, em português – é muito valioso por causa da madeira, que já foi bastante usada na construção de casas. Hoje, a extração é controlada e feita, praticamente, apenas para a produção de peças de artesanato.

Outro grande atrativo dessa região são as montanhas coloridas, que também aparecem em outras regiões da América do Sul. Por aqui, elas foram identificadas pela primeira vez em Humahuaca, na província de Jujuy.

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Montanhas e vales nos acompanham durante toda a viagem.

A viagem segue pela Quebrada del Toro. São 25 comunidades pequenas, simples e cheias de curiosidades. Em uma delas, El Alfarcito, paramos para tomar café da manhã.

Chamado de desayuno campestre, a gente para na praça do povoado e pode escolher o que deseja comer entre algumas opções básicas: eu peguei pães e chá de coca, para ajudar na luta contra a altitude.

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O café da manhã que tomei em El Alfarcito.

Depois do café – que na verdade foi chá –, eu aproveitei para conhecer um pouco mais de El Alfarcito e, sendo bem sincero, poucos lugares no mundo me emocionaram tanto quanto este aqui.

Na verdade, tudo está ligado à história de padre Chifri, que dedicou sua vida para que essas comunidades tivessem uma “vida mais digna e cheia de amor”, como diz a placa pregada na frente da igreja. Eu conto mais sobre isso em: A emocionante história de El Alfarcito e padre Chifri.

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A história desse lugar é impressionante.

Bienvenidos a Los Cobres

O ônibus vence as muitas curvas da estrada enquanto a paisagem vai mudando lentamente: já estamos na Quebrada de las Cuevas, em áreas bem mais altas, superiores aos 3.000 metros.

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O que dizer disso? Só agradecer.

Nesta região, há alguns sítios arqueológicos dos incas, império que dominou grande parte dos países andinos. Aliás, até hoje, não se tem notícias de uma civilização que tenha construído em lugares tão altos.

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Vista de San Antonio de los Cobres.

Pouco antes do meio-dia, o ônibus chega a San Antonio de los Cobres, de onde parte o Trem para as Nuvens. Ele é considerado o povoado mais alto da Argentina e a capital nacional da mineração.

É hora de partir

Apesar de pequeno – são apenas cinco mil habitantes –, San Antonio de los Cobres tem uma boa infraestrutura turística, considerando as peculiaridades dessa região: pequenas pousadas, restaurantes com preço justo, serviço bancário e sinal de celular e internet são um conforto a mais quando estamos a 3.760 metros acima do nível do mar.

A viagem de San Antonio de los Cobres até o viaduto la Polvorilla – o ponto mais alto da ferrovia – dura cerca de uma hora, sem paradas. A exatos 4.200 metros de altitude, os vagões param por meia hora e, depois, voltam para o ponto de partida.

Este é o lugar onde queria chegar. Aliás, é esta paisagem que recompensa o esforço – físico e financeiro – de viajar para um lugar tão exótico e, por isso, tão inesquecível: eu tive a certeza de que tudo valeu a pena.

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O Trem para as Nuvens fica trinta minutos no viaduto.

Depois de voltar a San Antonio de los Cobres, aproveitei para almoçar e para andar um pouco pela cidade. Mais tarde, começamos a viagem de volta e fizemos mais duas paradas rápidas, pois o cansaço já tinha batido em todo mundo.

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Sabe aquela viagem que a gente nunca esquece? Essa é uma delas.

Como é o trem?

O Trem para as Nuvens é uma composição com cinco vagões de passageiros, mais um vagão restaurante e outro para enfermaria: você já vai entender por quê.

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As poltronas são espaçosas e confortáveis.

Os vagões destinados a passageiros são confortáveis, têm sistema de calefação, banheiros e as poltronas são espaçosas. Nos monitores, aparecem informações sobre o percurso e as explicações são complementadas por guias que, volta e meia, aparecem com o microfone.

O restaurante é simples e sempre fica lotado. Como a viagem é curta, só são servidos lanches rápidos – industrializados – e bebidas. Uma garrafinha de águas custa ARS 35.

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O vagão restaurante vive cheio.

O trem viaja em uma velocidade média de 35 km/h, mas pode chegar a 60 km/h. O legal disso é que a gente vai admirando a paisagem com calma. Afinal, esta é uma viagem contemplativa, uma experiência, e não, apenas, um deslocamento.

Quando chega ao viaduto, a velocidade cai para 10 km/h até que o trem para totalmente. Ele fica aqui por 30 minutos, tempo que temos parar tirar algumas fotos e apreciar a estonteante e exótica beleza do lugar, antes de voltar aos vagões.

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As janelas abrem e a gente pode ver o caminho da ferrovia.

O QUE NINGUÉM CONTA
Se você não ficar em um assento privilegiado na ida, não se preocupe, porque, na volta, eles orientam que todos troquem de lugar: quem foi no lado esquerdo passa para o direito e vice-versa. Assim, todo mundo tem a mesma oportunidade.

Na parada sobre o viaduto a concentração de pessoas é grande, o que tira um pouco do que a gente espera do lugar: paz e tranquilidade. Claro que isso é totalmente compreensível, pois, além da euforia natural de ter chegado até aqui, todos têm pouco tempo para garantir a foto perfeita.

Ah! Não se esqueça de levar o passaporte, porque o trem tem um carimbo exclusivo para os viajantes que concluírem essa jornada. Você também pode mandar um cartão-postal de dentro do trem para qualquer lugar do mundo. Para o Brasil, o preço é ARS 90.

Cuidados com a saúde

O vagão enfermaria é uma medida de segurança recentemente adotada pela empresa que opera o trem. É que, no passado, muitos casos de turistas que se sentiam mal por causa da altitude deixaram a viagem no Trem para as Nuvens com uma imagem ruim.

Hoje, além de um vagão exclusivo para atenção médica, em todos os outros há um enfermeiro de plantão e balões de oxigênio para casos de emergência.

Isso é importante porque, quando a gente viaja para lugares com altitudes superiores às que estamos acostumados, é muito provável que nosso corpo reclame.

Na verdade, o mal de altitude é mais comum em lugares acima dos 3.500 metros, mas pode acontecer em lugares mais baixos, e é importante que você esteja ciente disso. Para saber mais, leia: Aprenda como prevenir o mal de altitude.

Planeje sua viagem no Trem para as Nuvens

Quando ir | Dá para fazer essa viagem em qualquer época do ano, mas é preciso consultar o site do Tren a las Nubes para confirmar as partidas, já que elas variam de acordo com a demanda.

Como você pode imaginar, não é por acaso que o trem tem este nome. É que, por causa da altitude, em dias nublados, a paisagem pode ficar totalmente coberta pela neblina, atrapalhando um pouco visual. Para saber mais, leia: Quando ir a Salta.

Quanto custa | Essa viagem não é barata, mas talvez isso se justifique pela experiência de viajar em um dos trens mais altos do mundo. Eu paguei ARS 2.570, preço cobrado para turistas estrangeiros que querem fazer o percurso de ônibus e trem.

Os ônibus são confortáveis e somos acompanhados por guias bem treinados durante todo o tempo. Apenas o café da manhã e o lanche da tarde estão inclusos no preço. O almoço é pago por fora.

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Apesar de curta – são apenas duas horas no trem – a viagem vale a pena.

Eu almocei em um dos restaurantes que funcionam no Centro de Informação Turística de San Antonio de los Cobres e paguei ARS 180 por um filé de lhama empanado com batatas.

Quem decidir fazer somente a viagem de trem vai pagar ARS 1.590, mas terá que chegar a San Antonio de los Cobres por meios próprios. Em todos os casos, eu recomendo fazer a reserva com antecedência pelo site do Tren a las Nubes.

Trem para as Nuvens: uma viagem de Salta para o céu

Parada na estação de San Antonio de los Cobres.

Como chegar | Salta é a cidade mais importante do norte da Argentina. Para chegar aqui, você pode voar até o Aeroporto Internacional de Salta Martín Miguel de Güemes (SAL), que fica a sete quilômetros do Centro. Como você pode imaginar, não há voos diretos do Brasil para cá.

De ônibus, você pode se conectar facilmente a outras cidades da região, como San Salvador de Jujuy, e até mesmo com a capital, Buenos Aires, mas a viagem é longa: são mais de 18 horas dentro do ônibus.

Um site muito utilizado pelos argentinos para consultar horários, preços e comprar passagens de ônibus é o Plataforma 10. Para saber mais, leia: Como chegar a Salta.

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Placa da estação avisando as distâncias percorridas.

Onde ficar | Como você deve imaginar, Salta tem muitas opções de hospedagem. Aqui, o melhor lugar para ficar é no centro, nos arredores da praça 9 de Julio. Especialmente, se você vem à cidade para fazer a viagem no Trem para as Nuvens, essa localização é uma mão na roda, porque você pode até ir para a estação a pé. Veja todas as opções de hospedagem em Salta.

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Não deixe de comer as empanadas salteñas.

Onde comer | A carne argentina é muito famosa e você tem que experimentar isso aqui em Salta. Um bom lugar para comer uma parrilla é o La Casona del Molino, um tradicional restaurante que tem apresentações voluntárias de música tradicional: são vários ambientes e qualquer pessoa pode levar seu violão para tocar e cantar. É sensacional.

Jamais vá embora de Salta sem comer as tradicionais empanadas salteñas e sem degustar os ótimos vinhos produzidos na região: as vinícolas que mais ouvi falar aqui são a El Porvenir e a El Esteco.

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SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

4 Comentários

  1. Altier, boa tarde! Qual empresa vc contratou para fazer os passeios em Salta? Vou para lá esse mês e não sei qual empresa contratar para fazer os passeios, a maioria oferece os mesmos passeios.
    Agradeço a atenção, Regina

  2. Oi, Altier! Boa noite!
    Adorei seu relato sobre o passeio no Trem das Nuvens.
    Estive em Salta a uns 4 anos e não consegui ir, o trem não estava operando (naquela época, acho que ele partia de Salta e voltávamos de ônibus).
    Agora estou me programando para retornar em março e já estou colocando o dia para o Trem das Nuvens, inclusive já verifiquei tudo no site, só não comprei o bilhete ainda.
    Gostaria que me falasse o lado do trem que seria mais interessante para a viajem de ida, mesmo que vá trocar de lugar na volta. Mas já queria ir na janela, observando a paisagem e fotografando.
    Agradeço e parabéns pelas informações e fotos!
    Denise

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