Cânion Itaimbezinho e a trilha do Rio do Boi

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Atualizado em 26 de fevereiro de 2018

O arquiteto Rommel Ramalho sempre teve um olhar especial para as coisas bonitas do mundo. Mas, como ele mesmo conta, foi a sua formação acadêmica que o estimulou a desenvolver uma fascinação ainda maior pelo belo. E foi viajando em contato com a natureza que ele encontrou a perfeição.

Sempre fui apaixonado por viagens de todos os tipos. De férias, de negócios, mais cultural e até religiosa. De uns anos pra cá, tomei consciência de que o ecoturismo batia no mais profundo do meu coração e me levava a lugares que transcendiam o simples e o óbvio fato do conhecimento superficial e da visitação”, conta.

Rommel, que mora em Fortaleza, a capital do Ceará, lembra que além das praias paradisíacas espalhadas pela costa do seu estado, há também inúmeras formações montanhosas. Dessa vez, a sua aventura começa no Rio Grande do Sul, bem longe dessa terra ensolarada.

Embarquei cedinho em Fortaleza no primeiro dia de agosto. Foi propositalmente depois do mês de férias escolares, e ainda em pleno inverno pra usufruir do friozinho típico da região. Cheguei em Porto Alegre no meio da tarde. Ainda deu pra visitar a Fundação Iberê Camargo que é a primeira obra do consagrado arquiteto português, Alvaro Siza Vieira, na América do Sul. Fantástico!”, se entusiasma o nosso amigo viajante.

No dia seguinte, Rommel alugou um carro e tomou o rumo das serras gaúchas com destino a Cambará do Sul. A cidade fica a 180 quilômetros de Porto Alegre. No caminho, passou por São Francisco de Paula, que com de São José dos Ausentes integra um verdadeiro patrimônio natural na região que é conhecida como Campos de Cima.

É nessa região, já na fronteira do Rio Grande do Sul com Santa Catarina que está o maior conjunto de cânions do Brasil. Um lugar privilegiado para o turismo de aventura e para o ecoturismo. Aqui chega quem gosta de trilhas na mata, vento frio no rosto e banho de rio.

Cânion Itaimbezinho

O cânion Itaimbezinho é menor, mas tem melhor infraestrutura.

Cânion Itaimbezinho

Rommel desafiando o cânion Fortaleza.

Dois parques nacionais concentram as principais trilhas e pontos de visitação nessa região. No Parque Nacional de Aparados da Serra está o cânion Itaimbezinho, cujos paredões chegam a 720 metros de altura. No Parque Nacional da Serra Geral, a falta de estrutura não diminui o deslumbramento diante do cânion Fortaleza. Este é mais alto e maior do que Itaimbezinho.

Em Aparados da Serra, as trilhas do Vértice e do Cotovelo são sinalizadas e protegidas com cercas na beira dos precipícios. Já na Serra Geral, quem vai pela primeira vez precisa de um guia. Especialmente se os planos incluem espichar o passeio até a cachoeira do Tigre Preto. Para conhecer os cânions mais distantes, como Churriado e Malacara também é indicado um guia.

O Cânion Itaimbezinho e a Trilha do Rio do Boi

Ita-imbé é nome indígena para pedra cortada. Essa é uma definição exata para as arestas verticais do Itaimbezinho. Os passeios em grupo para esse cânion costumam partir pela manhã, quando a paisagem fica mais nítida. Durante a tarde aumentam os riscos de nevoeiro, ou viração, como o fenômeno é chamado.

Para aproveitar o seu passeio com tranquilidade contrate um guia. Ele é importante, sobretudo, no quesito segurança. O turismo de aventura envolve riscos, quedas, trechos inóspitos e até sustos com animais selvagens. Os guias sabem cortar caminhos, mostrar ângulos surpreendentes e escolher as pedras mais firmes na hora de transpor riachos.

Em qualquer época do ano, cavalgar é um ótima programação nos campos de cima da serra. Na cultura gaúcha, o cavalo está associado à ideia de liberdade, de partir com pouca bagagem e conseguir chegar a recantos aonde um automóvel não chega. No alto das coxilhas e na beirada dos cânions, por exemplo”, sugere.

Cânion Itaimbezinho

Trilha: a travessia do Rio do Boi.

Cânion Itaimbezinho

Equipamentos de proteção contra picadas de cobras são essenciais.

Descendo aproximadamente 900 metros de altitude até a BR-101, Rommel chega a Praia Grande, em Santa Catarina. É hora do nosso amigo aventureiro entrar na trilha que percorre as margens do Rio do Boi. Aqui, ele experimenta o desafio de vencer todas as suas dificuldades. Os moradores da região contam que o nome Trilha do Boi se dá pelo fato de que alguns gados costumavam despencar dos paredões. Isso na época em que a região ainda não era protegida ambientalmente.

“Saímos bem cedo e nos dirigimos ao Posto de Informações e Controle. Lá iniciamos uma caminhada na mata por cerca de uma hora até atingirmos o ponto da margem do rio. Este é considerado ponto ideal para iniciarmos a trilha. Paramentamo-nos com capacete para prevenção de pancadas na cabeça no caso de alguma queda. Também usamos polainas para proteção de picadas de cobra, pois a nossa travessia seria quase totalmente pelas pedras das margens do rio. Eventualmente seria necessária a travessia do rio, no momento em que ele toca os paredões obrigando a caminhada na margem oposta”, diz.

A foto de grupos de mãos dadas no momento da travessia é tirada nessa trilha. Essa é a imagem mais explorada pelas empresas que divulgam o turismo pelos cânions. A paisagem dessa maravilha da natureza aliada ao sentimento de união e superação que a foto transmite é fantástica. “Sem meias palavras, foi sensacional, empolgante mesmo”, lembra.

Embora a empolgação seja quase incontrolável, só é permitido que os aventureiros caminhem até um determinado ponto do rio. Isso acontece para que haja tempo suficiente de retornar com segurança. É proibido pernoitar no Parque.

Cânion Itaimbezinho

O visual que temos ao caminhar pelos paredões do cânion.

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Quando ir | Rommel orienta que três ou quatro dias na região são suficientes para aproveitar todas as atividades, como os passeios contemplativos e as trilhas. De maio a agosto, a visibilidade melhora, em relação aos meses de verão, quando os dias são mais longos. Vale lembrar que o inverno é bastante rigoroso em Cambará do Sul e nas cidades vizinhas. Os termômetros chegam facilmente perto do zero.

Quem planeja a viagem para o verão aproveita melhor as trilhas nos rios e os banhos de cachoeira.  Duas importantes festas regionais são a Cavalgada Aparados da Serra, em julho, e a Cavalgada das Prendas, em setembro.

Onde comer | Em cambará do Sul, recomendaria dois restaurantes de comida típica. O Casarão com ambiente mais requintado, você pode degustar grappas, vinhos coloniais, como também, vinhos nacionais e internacionais. Já o Galpão Costaneira tem um ambiente mais rústico, um galpão em madeira, você come, além de grelhados, a típica comida campeira.

Onde ficar | Na beira da estrada de terra que leva ao Parque de Aparados da Serra impõe-se um dos três estabelecimentos gaúchos elencados pela Associação de Hotéis Roteiros de Charme. O Parador Casa da Montanha Ecovillage com cabanas aquecidas e casa de banhos fica numa paisagem não menos luxuosa. Mas, para quem precisa  economizar, não faltam quartos em pousadas simples nos arredores da Igreja Matriz São José e da rodoviária, com calefação e reforçado café da manhã, essenciais para a sobrevivência na região mais fria do país.

Em Praia Grande, a Pousada Refúgio Ecológico Pedra Afiada foi construída incrustada na boca do cânion Malacara, numa área contígua ao Parque Nacional da Serra Geral. Com guias experientes, equipamentos certificados e veículos adequados às condições das estradas, os hóspedes podem descobrir, com segurança, os atrativos naturais e a rica biodiversidade.

Guias e passeios | Criada em 1998, a Associação dos Condutores de Ecoturismo de Cambará do Sul foi pioneira nesta atividade no Estado.

Cânion Itaimbezinho

O encantador visual do Parador.

Cânion Itaimbezinho

A rusticidade do Galpão Costaneira.

 

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

7 Comentários

  1. Avatar

    Muito legal os cânions, porém os governantes deveriam asfaltar os 17 km de Cambará do Sul até o Parque Aparados da Serra. A estrada é horrívellllll. Pedageie, se for o caso. Garanto que vai aumentar o fluxo de visitantes. Valeu!

    • Altier Moulin

      Oi Ismael,

      Neste caso o problema não está na ausência de uma ação dos governos. Asfaltar uma estrada dentro de um parque requer muitos cuidados. Isso sendo feito, haverá aumento no fluxo de veículos, aumento na velocidade com que os carros passam pela estrada e, consequentemente, haverá aumento no número de animais atropelados. A decisão de não asfaltar a estrada é justamente para manter o cenário mais natural, com menos interferência humana. Nossos carros sofrem, mas a natureza agradece. E, aqui, é ela quem manda.

      Espero que tenha compreendido.

      Um abraço.

  2. Avatar

    Parabéns Altier, o site é belíssimo com ótimas dicas de turismo no nosso estado, e que explicação corretíssima passada ao Ismael, o ser humano pensa somente no seu conforto ao conhecer uma bela paisagem, mas não pensa que está bela paisagem está desta forma tão preservada justamente por manter quase intocável pelo homem.

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