Círio de Nazaré: a emocionante festa religiosa de Belém

30

Atualizado em 19 de fevereiro de 2018

O Círio de Nazaré é a maior festa católica do mundo. São quinze dias de celebração e, durante a principal procissão – chamada de Círio –, mais de dois milhões de pessoas se reúnem. As quentes ruas de Belém são tomadas para celebrar a devoção a Nossa Senhora de Nazaré.

Para o belenense, o Círio é como se fosse a antecipação do Natal. A cidade se enfeita, famílias se reúnem para comer os tradicionais pato no tucupi e maniçoba, e é costume, inclusive, desejar Feliz Círio. É nesse tempo que a devoção, o espírito de solidariedade e a fé de quem ama a Santa se mostram mais fortemente.

Eu estive em Belém a convite do governo do Estado para acompanhar os festejos e, realmente, nunca vi algo tão contagiante e comovente. Apesar de não ser católico, sempre tive vontade de participar do Círio. As notícias que tinha eram de que a festa é incrivelmente linda.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

O nome Círio surgiu porque era preciso levar velas para iluminar o caminho.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

A tradição ainda é mantida por muitas pessoas na trasladação.

Como conta a lenda, a primeira imagem venerada durante o Círio de Nazaré foi encontrada por Plácido José de Souza, em 1700. Hoje, é onde fica a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré. Antes da construção atual, aqui foi erguida uma pequena igrejinha.

CLIQUE E SAIBA MAIS SOBRE A HISTÓRIA DO CÍRIO DE NAZARÉ

Nossa Senhora de Nazaré já era adorada muito antes do Brasil ser descoberto. Sua devoção chegou aqui pelos padres jesuítas portugueses. Mas foi depois de ter sido encontrada, por acaso, às margens de um córrego de Belém que sua devoção cresceu no País.

Plácido José de Souza, ao encontrar a imagem da Santa, pensou que ela poderia ter pertencido a alguém que, por descuido, havia esquecido a estátua por aqui. Era comum os romeiros pararem neste lugar para beberem água antes de continuar a viagem.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

Uma das muitas réplicas que ornamentam as casas da cidade.

Sem saber a origem da Santa, Plácido levou a imagem para casa. Para sua surpresa, ela desapareceu misteriosamente na manhã seguinte. Ao voltar ao local onde a encontrou, Plácido novamente achou a Santa. Esse vai e vem se repetiu algumas vezes até que Plácido se deu conta de que aquilo era um milagre, um sinal de que a Santa merecia um lugar de devoção. Assim, uma pequena capela foi construída onde a Santa foi encontrada. Hoje, aqui fica a Basílica de Nossa Senhora de Nazaré.

A movimentação ao entorno da imagem da Santa era tão grande que o governador da província, na época, decidiu dar maior visibilidade ao fato, organizando uma grande festa. Só que, antes do festejo, marcado para setembro, ele ficou gravemente doente. O governador então, prometeu à Virgem que, se ficasse curado, iria buscar a imagem de Nossa Senhora de Nazaré para o Palácio do governo, e, na capela – onde hoje é a Basílica -, seria celebrada uma missa. Em seguida, a imagem voltaria do Palácio para a capela, acompanhado pelo povo.

E assim, depois de receber a graça, o então governador mandou buscar a imagem no dia 7, e realizou a procissão no dia 8 de setembro de 1793, sendo considerado, este, o primeiro Círio.

A primeira procissão em devoção a Nazaré, no Pará, aconteceu no século 18, e como não havia energia elétrica, era preciso usar velas para iluminar o caminho. Daí o nome do festejo: Círio, que significa vela.

Hoje, o Círio de Nazaré tem doze procissões, incluindo a romaria fluvial e a trasladação. A caminhada mais longa feita pelos peregrinos, chamada de Traslado de Ananindeua, tem quase 50 quilômetros, mas é possível ver centenas de promesseiros chegando de várias cidades para cumprir o prometido à Santa.

A Santa Nazaré

Esses promesseiros, normalmente, chegam à Catedral Metropolitana de Belém, mais chamada de Catedral da Sé, ou à Basílica, onde fica a imagem original da Santa, aquela encontrada pelo caboclo Plácido, em 1700.

Protegida como uma relíquia cristã, ela não sai do templo e ocupa um lugar de destaque no altar, entre serafins imponentes e anjos carismáticos. A imagem só desce para o altar principal duas vezes por ano: em maio, considerado o mês da devoção a Maria, e em outubro, por causa do Círio.

A imagem que acompanha as procissões é outra. Chamada de Nossa Senhora de Nazaré Peregrina, ela também tem seus mistérios. Um deles é o manto que a cobre durante o Círio: ele é preparado em segredo durante todo o ano e é revelado somente um dia antes da festa, em uma missa na Basílica.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

O lugar onde a imagem original é guardada.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

Ela só sai daqui duas vezes por ano.

A romaria fluvial

Na manhã de sábado, véspera do Círio, a Baía de Guajará, formada pelos rios Guamá e Acará, se enche de fé. É que, aqui, os romeiros mostram mais uma vez, sua devoção à padroeira paraense.

Barcos de todos os tamanhos e estilos deixam os portos e píeres da cidade e navegam até o Trapiche de Icoaraci, na entrada do Furo Maguari, onde a imagem da Santa aparece sendo carregada por um navio da Marinha do Brasil.

No cortejo, a gente passa pelo Mercado Ver-o-peso e por outros pontos turísticos da cidade. São tantos barcos, que em alguns momentos eles parecem que vão se chocar, mas nada aconteceu durante o tempo que estive aqui, por que a organização é muito bem feita, com homens dos Bombeiros e da Marinha em jet-skis e lanchas rápidas fazendo toda a coordenação.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

Romeiros em um dos muitos barcos que lotam a baía da cidade.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

São muitos e de todos os tamanhos, mas a fé é uma só.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

A imagem da santa é levada por um navio da Marinha.

No barco que estava, conversei com algumas pessoas e elas me contaram histórias emocionantes. Uma delas é a de Dona Francisca dos Santos. Ela nasceu em Belém, mas deixou a cidade aos 19 anos, para viver no Rio de Janeiro. Depois de meio século sem participar do Círio, voltou este ano para agradecer.

Estou muito emocionada, porque eu recebi muitas graças durante esse tempo. A maior delas é ter condições de voltar aqui aos 70 anos, sozinha, andando e saudável. Eu também tive a graça de poder educar, de ver meus cinco filhos crescerem e se formarem”, explica.

Simone Barbosa é outra paraense que deixou o Estado há alguns anos, mas sua história é bem diferente. “Minha mãe teve câncer e eu fiz uma promessa para Nossa Senhora de Nazaré. Se ela fosse curada, eu viria todos os anos para agradecer”, conta.

Infelizmente, a mãe de Simone não resistiu e faleceu, mas, mesmo assim, ela sai da Europa, onde vive atualmente, todos os anos para participar das celebrações do Círio.

Eu também conversei com Regina Ribeiro, de Angra dos Reis, que participa pela primeira vez da romaria. “Eu me sinto escolhida por Deus para estar no Círio. Eu sempre assistia na tevê e desejava estar aqui, me sentia atraída, porque é a máxima procissão de Maria”, diz.

O Círio de Nazaré

O Círio, propriamente dito, acontece no segundo domingo de outubro. Na noite anterior, durante a Trasladação, a Santa Peregrina é tirada do Colégio Gentil Bitencourt, onde fica durante todo o ano, e vai para a Catedral da Sé.

Da Catedral, onde começa o Círio, a imagem segue para a Basílica, percorrendo quase quatro quilômetros. Nessa caminhada, uma multidão de fiéis, promesseiros e curiosos se espremem para chegar perto da corda e da Santa.

No meio da multidão, é fácil perceber que somente a fé levaria as pessoas a fazerem o que fazem. Eu vi muitos romeiros carregando objetos de cera que imitam partes do corpo humano, tijolos, maquetes de casas e livros, por exemplo.

Eu vi, também, muita gente fazendo o trajeto de joelhos, sendo amparada por desconhecidos e familiares. Uma dessas pessoas era Ana Carolina dos Santos, 36 anos, que tinha a dor nitidamente estampada eu seu semblante. Ela estava aqui para cumprir a promessa feita em nome de seu pai, que tinha ido parar na UTI duas vezes este ano, sendo curado pela Santa, como me contou seu irmão.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

Ana Carolina paga promessa feita pelo pai.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

A berlinda que leva a santa mais adorada do Pará.

A corda do Círio

Uma grande tradição da festa é a corda. Na verdade, ela foi acrescentada às procissões por acaso. É que em 1855, as ruas da cidade ainda não eram calçadas e, como aqui chove muito, a berlinda,  carro que carrega a imagem da Santa, atolou e foi preciso amarrar uma corda para puxá-la. Como medida de precaução, a corda acabou permanecendo nos próximos anos e, hoje, tocá-la é uma grande honra. Tanto que as pessoas se espremem e se apertam para segurá-la.

Ir na corda, como falam os paraenses, é também sinal de devoção, já que muitos pagam suas promessas puxando a Santa. Eu consegui pegar na corda e até ganhei um pedaço dela.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

Ir na corda, como dizem os paraenses, exige muito fôlego e preparo.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

O empurra-empurra é grande, principalmente quando passam as estações amarradas pela corda.

Aliás, essa é outra grande história do Círio de Nazaré. No final da procissão, os romeiros cortam pedaços da corda e guardam como amuleto, como algo bendito. Mas o problema é que, infelizmente, a corda está sendo cortada cada vez mais cedo e, em alguns casos, não chega à metade do caminho. Há relatos, inclusive, de pessoas que se machucam por causa das facas usadas para cortar a corda.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

O pedaço da corda que ganhei no Círio de Nazaré.

Planeje sua participação no Círio de Nazaré

Quando ir | A principal romaria do Círio de Nazaré acontece no segundo domingo de outubro, mas as celebrações começam na quinta-feira anterior, com a apresentação do manto da Santa e duram 15 dias. Para ver a programação completa, acesse o site do Círio.

Além do roteiro religioso, muitos eventos profanos acontecem na cidade durante esses dias. Um deles é o Auto do Círio, um tipo de desfile de carnaval embalado por cânticos devocionais ritmados.

Não há um tempo exato para o percurso do Círio, já que a Santa para em vários pontos para receber homenagens. Uma maneira fácil e prática de acompanhar o trajeto é baixar o aplicativo do Círio de Nazaré.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

Mais de dois milhões de pessoas nas ruas de Belém.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

A devoção supera até mesmo o calor de Belém.

O emocionante Círio de Nazaré, em Belém

Paraenses e gente do Brasil inteiro se unem na maior festa católica do mundo.

Quanto custa | Grande parte da programação do Círio é gratuita, como as procissões e as missas, claro. A romaria fluvial é cobrada e o valor depende da embarcação e do que é oferecido a bordo, como alimentos e entretenimento. Eu vi empresas cobrando R$ 300, mas certamente você encontra opções mais baratas.

Se não quiser enfrentar a multidão, você pode ver tudo das arquibancadas que são montadas no trajeto. Este ano, o ingresso para a noite da Trasladação custou R$ 35, e o do domingo do Círio, R$ 70. A venda é feita online, começa cerca de dois meses antes da festa e é divulgada no site do Círio.

Onde ficar | Uma boa opção é ficar em um dos hotéis do percurso do Círio, já que o transporte fica muito prejudicado nesta data, com avenidas interditadas e tomadas de gente. Eu me hospedei no Grand Mercure Belém, mas você pode consultar todas as opções da cidade e comparar os preços.

Onde comer | Quanto vier para o Círio de Nazaré, você deve aproveitar para comer os pratos regionais. Os mais tradicionais são o pato no tucupi e a maniçoba. Um bom lugar para experimentar essas e outras iguarias da cidade é o Manjar das Garças, restaurante que fica no parque Mangal das Garças.

O tradicional pato no tucupi do Manjar das Garças.

O que levar | Nos dias de procissão, aconselho usar roupas leves, protetor solar e evitar andar com objetos de valor – como celular, relógio e carteira, por exemplo –, pois há registro de atos de violência envolvendo turistas. Eu, particularmente, andei com minha câmera fotográfica o tempo todo e não me senti inseguro. O maior risco, aqui, é ser pisoteado ou espremido pela multidão.

Essa viagem teve o patrocínio do Governo do Pará.

CONPARTILHE COM SEUS AMIGOS

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

30 Comentários

  1. Teresa dos Santos on

    Sensível, emocionante e muito lindo seu post.
    Já acompanho seu trabalho e cada vez fico mais feliz por ver quanto o nosso Brasil é lindo.
    Muito obrigada por compartilhar.

    Fique com Deus.

  2. Falae, Altier.

    Que post legal, cara. Também não sou católico, mas me arrepiei com as fotos. Muito realistas.
    Essa festa é todo mês de outubro.

    Valeu!

  3. Eu vi a reportagem na televisão e procurei no Google, daí achei seu site.
    Muito legas as duas dicas e as fotos. O vídeo também ficou lindo.
    Maria merece toda essa festa.

    Goreti

    • Altier Moulin

      Oi, Graciane.

      A maioria das festas são gratuitas. Algumas atividades são pagas, como a romaria fluvial e as arquibancadas, por exemplo. Mas se não quiser gastar, você pode, apenas, fazer a programação gratuita.

      Um abraço.

  4. Simone oliveira on

    Mt bom..é isso mesmo…vc colocou a emoçao junto ..e como vc falou, mrsmo nao sendo católico , não tem como nao se emocionar, é contagiante!Tb nao sou catolica , mas acho lindo e me emociono sempre..a energia da cidade muda..é impressionante..mt bacaba o seu olhar..tanto no texto quanto na foto..espetacular👏👏👏👏

Escreva um comentário

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.