História de Lençóis, na Chapada Diamantina: do garimpo ao turismo

Atualizado em 12 de outubro de 2022 – 6 min de leitura

História de Lençóis, na Chapada Diamantina: do garimpo ao turismo

A cidade de Lençóis, na Bahia, é considerada a capital da Chapada Diamantina. Embora pequena – hoje tem pouco mais de onze mil habitantes –, ela já foi a maior produtora de diamantes do mundo. Este é apenas um fato que faz a história de Lençóis ser tão interessante.

Da riqueza do garimpo ao imenso potencial turístico, que só passou a ser aproveitado há poucas décadas, é impossível passar pela cidade sem querer saber mais.

→ Como chegar à Chapada Diamantina

É justamente por isso que eu – como viajante curioso que sou – resolvi contar os detalhes de como Lençóis se tornou a cidade que é hoje.

Origem do nome Lençóis

Para começar, a primeira pergunta que surge é: por que a cidade tem este nome?

Há três versões para a origem do nome Lençóis.

A mais aceita por historiadores diz que o nome surgiu por causa dos acampamentos dos garimpeiros, que chegaram à região a partir de 1845. Como não havia muitas casas, eles se abrigavam em tendas que, de longe, pareciam lençóis.

Outra versão diz que o nome nasceu devido à espuma branca que cobre os rios e riachos da região. A ideia é atribuída ao escritor Afrânio Peixoto, nascido em Lençóis, mas eu não consegui confirmar esta informação.

A terceira versão conta que o nome Lençóis surgiu por causa das lavadeiras que estendiam as roupas sobre as pedras para quarar – uma técnica usada para deixar os tecidos mais claros a partir da exposição à luz solar.

É possível que você ouça as três versões para a origem do nome Lençóis, mas, como falei, a primeira é considerada oficial. É ela que está no material de divulgação turística da cidade e nas casas de memória que visitei.

História de Lençóis: do garimpo ao turismo

A história de Lençóis começou em 1844 quando surgiu um pequeno povoado de fazendeiros nas margens do rio São José. Na época, a principal atividade econômica era a criação de gado. Até que, no ano seguinte, foram encontrados diamantes nos leitos dos riachos da região.

Foi a partir daí que Lençóis começou a receber garimpeiros de outras partes do Brasil, especialmente de Minas Gerais.

Da noite para o dia, o povoado ficou entupido de gente e, claro, não tinha casa para todo mundo. Foi assim que surgiu o apelido de Arraial dos Lençóis: os garimpeiros moravam em tendas que, de longe, pareciam lençóis brancos estendidos – como já expliquei.

História de Lençóis, na Chapada Diamantina: do garimpo ao turismo

Foto: Reprodução/Memorial do Garimpeiro

Estima-se que 20 mil pessoas moravam na região no auge do garimpo – entre 1845 e 1871 –, isso porque as estatísticas oficiais da época não contavam os negros escravizados que trabalhavam nas fazendas.

Naquele tempo, Lençóis chegou a ser a maior produtora de diamantes do mundo e uma das cidades mais importantes da Bahia, com intensa relação comercial com a Europa, para quem vendia seus preciosos diamantes – um vice-consulado da França chegou a ser instalado na cidade para facilitar os negócios.

Em 1864, a Vila dos Lençóis, que pertencia ao município de Mucugê, foi elevada à categoria de cidade e passou a se chamar apenas Lençóis. Foi neste período que a cidade se desenvolveu, ganhando construções mais elaboradas e imponentes.

História de Lençóis, na Chapada Diamantina: do garimpo ao turismo

Lençóis, então, passou a ser compartilhada por garimpeiros, que trabalhavam pesado nas lavras de diamantes, e pela alta sociedade da época, que se inspirava no estilo de vida dos europeus – de quem compravam todo o luxo que a riqueza permitia.

DECADÊNCIA DO GARIMPO

Na verdade, toda a riqueza dos diamantes foi conquistada pelos garimpeiros, que trabalhavam pesado nas lavras de mineração, mas que só recebiam dez por cento do que encontravam. O resto ficava com os donos das terras.

Quando os diamantes começaram a desaparecer e o comércio internacional com o Brasil deixou de ser interessante – foi nesta época que descobriram diamantes na África do Sul –, Lençóis entrou em decadência e muita gente foi embora.

Ficaram apenas quem não tinha como deixar a cidade e aqueles que já estavam adaptados à vida em Lençóis.

VIDA DE GARIMPEIRO
O garimpeiro de serra trabalhava manualmente e tinha hábitos peculiares no modo de se vestir, de comer e de se abrigar, pois era comum passar a semana no garimpo.

De dia, trabalhava nas lavras, e à noite, se abrigava em tocas feitas sob rochas e fechadas com alvenaria de pedras secas, sem cimento. Ali, cozinhava e dormia em camas de varas.

História de Lençóis, na Chapada Diamantina: do garimpo ao turismo

No Memorial do Garimpeiro é possível visitar uma réplica de uma dessas moradias. O memorial é mantido pela Sociedade União dos Mineiros (SUM), fundada em 1927 com a finalidade de que seus associados pudessem se ajudar mutuamente.

A longa decadência só melhorou depois que o turismo surgiu como alternativa econômica – por quase 20 anos, o garimpo dividiu espaço com o turismo, até que o governo decretasse a proibição da mineração nas lavras diamantinas, como medida de preservação ambiental.

Isso aconteceu em 1.996, quando, de fato, o garimpo mecanizado e manual se tornou ilegal na região, mas não é raro ouvir histórias de garimpeiros manuais que ainda buscam a riqueza dos diamantes de forma discreta.

Mas, de fato, foi o turismo que absorveu a mão de obra do garimpo, já que muitos ex-garimpeiros acabaram virando guias de  turismo – como é o caso do Tião, que me mostrou a parte histórica da cidade.

PATRIMÔNIO NATURAL E HISTÓRICO

Foi assim que o turismo se fortaleceu, embora a criação do Parque Nacional da Chapada Diamantina já tivesse acontecido em 1985 e o tombamento da cidade pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), em 1973.

De lá para cá, Lençóis se tornou a cidade mais bem preparada para receber turistas que querem explorar as maravilhas da Chapada Diamantina, sendo a melhor base para quem planeja uma viagem pela região, possibilitando uma imersão em seus dois caminhos – o garimpo e o turismo.

É por isso tudo que, além de explorar as cachoeiras e os picos da Chapada Diamantina, uma caminhada atenciosa pelas ruas de Lençóis vai deixar sua viagem mais interessante.

Você vai notar que a cidade tem a típica estrutura das vilas nascidas durante o período da mineração. Entre as ruas estreitinhas e calçadas de pedra, duas merecem destaque: a Rua das Pedras e a Rua da Baderna.

A história dessas vias é contada por moradores e o que dizem é que a Rua das Pedras era um local de prostituição, onde funcionavam os cabarés da cidade. Só que, para não serem vistos entrando nos ambientes em busca de mulheres, os homens se concentravam na Rua da Baderna, onde havia casas com passagem para a Rua das Pedras.

História de Lençóis, na Chapada Diamantina: do garimpo ao turismo

Hoje, as duas ruas viraram um polo gastronômico do Centro Histórico, mas ainda existem moradores que não passam pela Rua das Pedras por causa de sua má fama.

PRÉDIOS DO CENTRO HISTÓRICO

Para entrar no Centro Histórico é preciso cruzar a Ponte sobre o Rio Lençóis, construída com pedras a partir de 1.860. Ao seu lado fica o Mercado Público Municipal, que já teve diversos usos – inclusive para a venda de diamantes e de escravos.

Na Praça Horácio de Matos, espaço público mais importante da cidade, a gente encontra alguns sobrados construídos pelos ricos da época. Um deles serviu como Casa do Conselho, mas foi demolido na década de 1.940 para a construção da agência dos Correios.

História de Lençóis, na Chapada Diamantina: do garimpo ao turismo

Outros pontos que você pode visitar para conhecer melhor a história de Lençóis são a Prefeitura Municipal, o casarão onde funciona o Escritório Técnico do Iphan, o Teatro de Arena, que, na verdade, seria uma catedral, mas a construção nunca terminou depois que o garimpo entrou em decadência.

Outro lugar muito interessante para conhecer é o prédio da Sociedade Philarmônica Lyra Popular, umas das entidades mais antigas e vivas da cidade.

Ele foi construído entre 1903 e 1926, pelos sócios da banda musical, que, originalmente, ganhou o nome de Carapinha ou São Benedito, por ter sido formada por negros em sua primeira composição, ainda no século 19. Naquela época, estava sob a direção do Maestro Clementino Oliveira da Costa, quem também comandou sua reorganização em 1.903.

Tem, ainda, a Igreja Nossa Senhora do Rosário, a Igreja de Nosso Senhor dos Passos, o padroeiro de Lençóis, a Casa de Cultura Afrânio Peixoto, que tem itens pessoais e parte da biblioteca do escritor lençoiense, o Memorial do Garimpeiro, que tem um pequeno museu com a trajetória dos garimpeiros e muito mais.

História de Lençóis, na Chapada Diamantina: do garimpo ao turismo

Como visitar os pontos históricos de Lençóis

Infelizmente, não será fácil encontrar guias profissionais para mostrar a parte histórica da cidade, já que a maioria deles está focada no que os turistas querem ver: as belezas naturais da Chapada Diamantina.

Mesmo nas agências de turismo você terá dificuldade de encontrar um city tour.

Eu contratei um guia, mas, apesar de toda sua bagagem como ex-garimpeiro, senti falta de algumas informações básicas – então, tive que pesquisar para poder, de fato, entender a história de Lençóis.

Como a cidade é pequena, dá para conhecer o Centro Histórico em duas ou três horas. Para quem gosta de dar mais atenção ao que está visitando, uma tarde será ideal.

No mapa abaixo, eu marquei todos os pontos de interesse que você pode visitar para conhecer um pouco da história de Lençóis. Todos são gratuitos.

Veja mais dicas da Bahia

Ficou mais fácil planejar sua viagem? Se tiver alguma dúvida, deixe sua pergunta nos comentários que eu respondo.

Se preferir, pode falar comigo no Instagram: @altiermoulin. Agora, aproveite para ver outras dicas da Bahia.

Sobre o Autor

<a href="https://www.penaestrada.blog.br/author/altier/" target="_self">Altier Moulin</a>

Altier Moulin

Sou jornalista, capixaba e apaixonado pelo universo viajante. Sempre gostei de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Quando criança, sonhava em viajar pelo mundo e, já adulto, isso virou um propósito de vida.

comentários

38 Comentários

  1. Alba lucian

    Boa tarde, Altier.
    Por acaso estava buscando informações sobre a minha nova cidade, local que meu esposo e eu escolhemos para morar há dois anos, e que, desde alguns anos atrás, nos apaixonamos e visitávamos com frequência. Nossa pequena Lençóis, na Chapada Diamantina.
    Gostei demais do seu texto, tão esclarecedor e atento aos pequenos detalhes. Obrigada!!! Quis lhe enviar mensagem pq nesse momento, buscando informações, a sua parece bastante fidedigna e contém um certo charme de quem gosta de viajar e compartilhar o melhor da viagem. Sem dúvida, nossa cidade ficou ainda mais atraente no seu potencial turístico. Abraços , Alba.

    Responder
    • Altier Moulin

      Que maravilha, Alba.
      Lençóis é uma cidade apaixonante, cheia de cultura e história. Você vai poder explorar tudo isso com calma. Felicidades na jornada de vocês.
      Um abraço.

      Responder
  2. Carla Moraes

    Oi, Altier!
    Obrigada por compartilhar informações tão preciosas. Me ajudou demais!

    Responder
    • Altier Moulin

      Oi, Carta.
      Fico feliz em contribuir com sua viagem. 🙂
      Um abraço!

      Responder
  3. Fabíola Matos

    Oi, Altier.
    Suas dicas são preciosas, detalhistas e ajudam muito.
    Obrigada!

    Responder
    • Altier Moulin

      Obrigado, Fabíola!
      Um abraço.

      Responder
  4. Antônia Silva

    Altier,
    Adorei as dicas.
    Obrigada!

    Responder
    • Altier Moulin

      Por nada, Antônia. 🙂
      Um abraço!

      Responder
  5. Gabriel Marques

    Oi, Altier!
    Tem tempo que quero conhecer esse lugar e agora fiquei ainda mais interessado. Valeu mesmo pelas informações, cara. Seu blog é uma referência não é por acaso.

    Responder
    • Altier Moulin

      Que coisa boa de ler, Gabriel!
      Você que acompanha meu trabalho percebe o quanto levo isso a sério.
      Obrigado pelo comentário.
      Um abraço!

      Responder
  6. Fabrícia Mendes

    Olá,
    Setembro é uma boa época? Vou com meu marido.
    Obrigada!

    Responder
    • Altier Moulin

      É sim, Fabrícia.
      As chuvas só chegam mesmo no fim do ano, depois de novembro. Aproveite muitooo! 😉
      Um abraço!

      Responder
      • Ana Paula

        Estou morando em Lençois, vim para passar as férias e fiquei (resumindo). Me apaixonei pela cidade. Adorei saber um pouco mais da história.

        Responder
        • Altier Moulin

          Que maravilha, Ana Paula.
          Eu gostei muito de Lençóis e fiquei fascinado pela história da cidade. Morando aí, você vai descobrir muita coisa interessante. 🙂
          Um abraço!

          Responder
  7. Dayane Amorim

    Oiii,
    Adorei as explicações. Você realmente manda bem e da para ver que é um viajanto curioso por natureza. rsrsrsrs
    Já quero ler todos os posts desse lugar!

    Responder
    • Altier Moulin

      Obrigado, Dayane. 🙂
      Leia e comente, por favor.
      Um abraço!

      Responder
  8. Denis Matos

    Meu destino dos sonhos que agora vou conhecer. Obrigado pelas dicas, man. Ajudou demais!

    Responder
    • Altier Moulin

      Opa, Denis!
      Demorei para conhecer a Chapada Diamantina, mas confesso que foi bom ter ido agora. Estou mais maduro e com o olhar mais apurado para algumas coisas, como a parte histórica e humana das viagens.
      Aproveite, meu amigo!
      Um abraço.

      Responder
  9. Cida Pinheiro

    Olá!
    Dicas maravilhosas. Adorei a forma que explica cada detalhe sem enrolação. 🙂

    Responder
    • Altier Moulin

      Obrigado, Cida.
      Um abraço!

      Responder
  10. Gustavo Brandão

    Opa!
    Encontrei o post que precisava kkkk
    Já até fiz a reserva.

    Responder
    • Altier Moulin

      Assim que é bom, Gustavo!
      Um abraço.

      Responder
  11. Patrícia Pontes

    Ai, me indica um hotel bom para quem está com crianças?
    Obrigada!

    Responder
  12. Fabio Fontes

    Oi, Altier!
    Como está o funcionamento das coisas por aí?
    Obrigado!

    Responder
    • Altier Moulin

      Oi, Fabio.
      Está tudo funcionando de forma normal, praticamente. Com todos os cuidados, dá para visitar a parte histórica e os atrativos naturais.
      Bares e restaurante geralmente têm mesas ao ar livre – na rua mesmo. Espero que continue assim, tranquilo.
      Um abraço!

      Responder
  13. Bernardo Sales

    Vou seguir suas dicas e já sei que é sucesso!!!!
    Obrigado!

    Responder
    • Altier Moulin

      Oi, Bernardo.
      Vá e me conta depois… hehhe
      Um abraço!

      Responder
  14. Amanda dos Santos

    Oi, Altier.
    Como não se apaixonar por seu blog? Sempre tem tudo para fazer aquela viagem fora do lugar comum. Amo!
    Obrigada!

    Responder
    • Altier Moulin

      Ahhhh… obrigado, Amanda!
      Sempre tento fazer o melhor para compartilhar as experiências que vivo nesse mundão. 😉
      Um abraço!

      Responder
  15. Gustavo Brandão

    Opa! Encontrei o post que precisava kkkk

    Responder
    • Altier Moulin

      Aí e bom, hein, Gustavo! Hehh
      Um abraço!

      Responder
  16. Daniela Freitas

    Altier,
    Maravilhoso esse post. Informações assim deixam nossas viagens muito mais ricas.
    Gratidão!

    Responder
    • Altier Moulin

      Obrigado, Daniela.
      Espero que aproveite Lençóis como eu. 🙂
      Um abraço!

      Responder
  17. Brunno

    Uma rápida aula sobre o tanto que tem para aprender sobre a cidade e dicas que vão poupar muito do valioso tempo de quem quer visitar Lençóis e a Chapada Diamantina. 👏🏻👏🏻👏🏻

    Responder
    • Altier Moulin

      Oi, Brunno.
      Verdade! Tempo sempre é valioso, ainda mais quando estamos viajando e queremos ver de tudo um pouco. 😉
      Um abraço!

      Responder
  18. André Cotta

    Opa!
    Valeu demais o post… ajudou muito meu planejamento. Vlw!

    Responder
    • Altier Moulin

      Maravilha!
      Tem um grande valor histórico escondido em Lençóis e não são muitos viajantes que percebem isso. Aproveite!
      Um abraço.

      Responder

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