Salvador pelos olhos de uma africana

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Atualizado em 9 de fevereiro de 2018

A jornalista sul-africana, Laura Brown, já participou do blog escrevendo sobre seis imperdíveis atrações de Buenos Aires. Dessa vez ela nos traz um olhar especial sobre Salvador. Com um olhar experiente de quem conhece bem as raízes africanas, Laura compartilha sua percepção sobre a cidade mais afrodescendente do nosso país. O texto, que começa no próximo parágrafo, foi publicado originalmente, em inglês, no jornal Sowetan.

Essa cidade do nordeste brasileiro, que é também uma sede da Copa do Mundo de 2014, pulsa com uma energia única ao ritmo lento da vida baiana. Sob uma arquitetura de estilo colonial, a cidade faz com que você sinta como se tivesse acabado de pousar em uma era diferente.

Influências africanas, remanescentes da época em que a região era um importante porto de comércio de escravos, permeiam todos os cantos da cidade. Passeando pelas ruas, logo encontro o som dos tambores e o cheiro do tempero flutuando no ar. Também vejo, claramente, características que me lembram que essas pessoas têm sua ascendência no continente africano, em particular da costa ocidental.

Então, se nas demais regiões do Brasil é possível ver uma grande mistura de raças que incluem os brancos de origem europeia, os nativos tradicionais habitantes dessa região, os negros que vieram da África  –  o que gerou todas as mistura possíveis -, na Bahia a maioria da população é negra. Não é incomum ver pessoas vestindo trajes típicos do oeste africano, o que reflete um pouco de sua herança.

Outra característica comum é ver as pessoas andando com roupas brancas. A vestimenta geralmente é  associada ao Candomblé, uma religião afro-brasileira muito praticada na Bahia.

Embora o português seja a língua principal e oficial utilizada em todo o país, ainda se pode encontrar vestígios de línguas africanas no estado da Bahia. Placas de algumas lojas de Salvador são escritas em iorubá, por exemplo. Muitas palavras desse dialeto africano se misturaram com o português formando uma parte comum da vida cotidiana.

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Vista aérea do Farol da Barra e da parte moderna de Salvador. Foto: Governo da Bahia

Culinária | A maioria dos pratos baianos é feita com azeite-de-dendê, um óleo extraído do Dendezeiro. A planta é uma palmeira originária da costa ocidental africana. Quem chega a Salvador vai se acostumar rapidamente com o cheiro forte do dendê que está ao redor de toda a cidade. Aliás, essa é mais uma herança das raízes africanas onde o azeite-de-dendê é um ingrediente essencial.

Uma das coisas mais comuns para comer em Salvador é o acarajé. O bolinho é semelhante ao nosso sul-africano vetkoeks, mas feito com uma mistura de feijão em vez de farinha de trigo. Ele é frito no azeite-de-dendê e, em seguida, recheado com camarão, vatapá, caruru – outros dois tipos de comida baiana – um molho de quiabo e pimenta como uma opção, tornando uma comida com sabor explosivo.

Mas tenha cuidado. Essas mordidas saborosas podem se tornar um vício e, antes que você perceba, poderá estar comendo muito mais fritura do que você esperava. Pelo menos você não vai precisar se preocupar com o peso extra porque, provavelmente, você vai precisar subir e descer ladeiras e caminhar bastante para conhecer a cidade. Então, isso será uma forma de recompensar as calorias adquiridas.

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Acarajé: massa feita de feijão e frita em azeite-de-dendê. Foto: Turismo Bahia

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Traje típico de uma baiana do Acarajé. Foto: Rodrigues Pozzebom

Atrativos | Uma das principais atrações turísticas de Salvador é o Pelourinho. O bairro histórico foi reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Unesco, em 1985. A área, que serve como um museu ao ar livre é uma explosão colorida de edifícios coloniais espalhados por estreitas ruas de paralelepípedos. Aqui, você encontra igrejas, restaurantes, mercados, boates e uma variedade de performances feitas na rua mesmo. Ideal para você desfrutar de ritmos com origens africanas, como o axé, e exibições de capoeira.

À noite, quando a vida noturna bomba, na maioria dos dias você vai encontrar algum tipo de festa rolando. Especialmente às sextas e terças, que se tornaram grandes noites festivas na cidade.

Há algum tempo, o Pelourinho ganhou a reputação de ser um lugar perigoso devido a vários assaltos. No entanto, nos últimos anos, a Prefeitura e a polícia têm empregado mais recursos para torna-lo um lugar mais seguro para o turista. Um exemplo disso é que você vai ver, muitas vezes, patrulhas da polícia ao redor dessa área, fazendo você se sentir mais confortável. No entanto, ainda é aconselhável permanecer nas áreas mais iluminadas e não andar por becos onde você não vê ninguém.

Salvador é construída sobre um penhasco, com o Pelourinho na parte superior e o Mercado Modelo e o Porto na cidade baixa. Com esta configuração a cidade tem uma forma incomum de transporte público: um elevador para salvá-lo de ter que andar todo o caminho para cima ou para baixo.

Além de ser uma atração turística fascinante e um ponto ideal para tirar fotos – especialmente ao pôr do sol – o Elevador Lacerda é a melhor opção para evitar os assaltos, que são bastante comuns em torno das encostas mais íngremes.

E, quando terminar de explorar a cidade, você pode relaxar na praia. O litoral da Bahia é o lar de praias de areia branca forrada com coqueiros. É o lugar perfeito para uma tarde – ou alguns dias – saboreando uma cerveja gelada ou água de coco.

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Pôr do sol no Elevador Lacerda.

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Laura Brown comendo o famoso acarajé e, ao lado, o Pelourinho.

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Praia de Itapuã, uma das mais famosas da cidade. Foto: Portal da Copa

Laura Brown compartilhou conosco suas impressões sobre a capital baiana. Saiba como participar contando suas histórias de viagem. Assim, você vira notícia e ainda incentiva muita gente a viajar mais e melhor.

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

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