Favela da Rocinha: algo diferente no Rio

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Atualizado em 19 de abril de 2018

O Brasil e o mundo amam o Rio de Janeiro. O conjunto mar, lagoa e montanhas pinta um cenário paradisíaco desejado por viajantes do mundo inteiro. A cidade tem pouco mais de 6 milhões de habitantes e estima-se que 2 milhões deles vivam em comunidades irregulares, como a favela da Rocinha, ocupando os morros que dividem espaço com atrações mundialmente conhecidas como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar.

A favela da Rocinha, a maior do Brasil, é uma dessas comunidades e leva este nome por ter sido ocupada inicialmente por imigrantes portugueses e espanhóis que produziam, na região, hortaliças que abasteciam o mercado carioca. Vinte anos depois do início de sua ocupação, em 1950, a favela começou a ganhar corpo com a chegada de milhares de imigrantes nordestinos. Eles traziam para o Rio de Janeiro muito mais do que a sua força de trabalho. A cultura sertaneja acompanhou o sem número de famílias que aqui chegaram e ainda hoje é forte no morro carioca.

Assim começou a história da Favela da Rocinha, que somente depois de 1970 passou a receber obras de infraestrutura. Hoje, é impossível saber quantos habitantes dividem os humildes sobrados da favela: a empresa fornecedora de energia elétrica estima 120 mil pessoas, o censo oficial de 2010 contou 62 mil e os próprios moradores elevam o número para 150 mil habitantes. Logo, sem saber ao certo quantas pessoas ocupam os pés do Morro Dois Irmãos, fica difícil planejar qualquer ação com a comunidade, seja ela de educação, de saúde ou de segurança.

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro

Morro Dois Irmãos: ao seus pés nasceu a maior favela brasileira.

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro

Amontoados, os sobrados abrigam milhares de pessoas que não podem ser contadas.

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro

Quase sem conforto e sem espaço entre as casas, a cumplicidade entre vizinhos é essencial.

Pacificação da Favela da Rocinha

Por falar em segurança, no dia 13 de novembro de 2011 a Favela da Rocinha foi cenário de uma grande operação conjunta entre as polícias cariocas e o Exército Brasileiro. O objetivo era ocupar o território, tirando-o das mãos dos traficantes. Este era o primeiro passo para a instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora – UPP, a 28ª da cidade. Entretanto, a unidade policial da Rocinha começou a funcionar, de fato, somente no mês passado.

Depois de nove meses de ocupação, há quem garanta que o clima da favela é outro. Pelo menos é o que me contou Patrícia, a guia que conduziu o grupo formado por nove turistas: duas americanas, dois suecos, dois holandeses, uma australiana e um português dividem a Van comigo, o único brasileiro.

Hoje você não vê pessoas armadas pela comunidade. O tráfico ainda existe, mas já não existe o domínio dos traficantes. Por isso, a gente vê viaturas espalhadas por diversos cantos da comunidade. Depois da pacificação só foram registrados sete crimes aqui dentro”, conta demonstrando uma pontinha de orgulho.

Nove também é o número de guarnições policiais pelas quais cruzamos durante o passeio de pouco mais de duas horas. Carros e motos ocupam locais estratégicos e os principais acessos da favela.

Experiente, a equipe de Marcelo Armstrong, do Favela Tour, nos conduz aos pontos mais seguros da Rocinha. “Nós não vamos entrar nos becos. Neste passeio vamos cuidar para permanecermos nos pontos mais movimentados e com maior presença de policiais. Eu não quero que vocês se sintam inseguros, pelo contrário, eu quero que vocês experimentem e depois vocês me digam como vão se sentir. As pessoas gostam de receber o turista na comunidade e hoje, domingo, é o dia que todos estão em festa”, explica a guia.

Com a informação de Patrícia fico pensativo: se o clima é assim, tão amistoso, porque não caminhar pelos estreitos corredores da mais famosa favela brasileira? Ela completa: “como a pacificação é recente, nós não sabemos o que pode acontecer e, para evitar qualquer imprevisto, nós vamos fazer um roteiro mais seguro”.

Depois de ouvir o discurso da guia, me volto para o ponto de onde partimos e ouço alguém me chamar. Do outro lado da calçada, vejo um rapaz acenando. Leonardo, um vendedor ambulante, me recebe com seu cartão em uma das mãos. “Percebi que você fala português e, se o senhor quiser eu posso te levar para fazer o verdadeiro tour na favela. Nós vamos andar tudo aí dentro”, promete apontando para o morro do seu lado.

Subestimando ou não os riscos que a favela ainda oferece, ele tenta me convencer a contratar seus serviços. Pergunto se não há perigo e ele de pronto responde: “eu nasci aqui, conheço todo mundo. Se você estiver comigo não tem problema. Nada vai acontecer”. Agradeço a sua atenção, guardo o cartão e sigo o grupo de gringos que já estava dentro da Van.

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro

Em vários pontos estratégicos da favela encontramos encontramos viaturas policiais.

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro

Leonardo (de boné): vendedor e guia turístico nas horas vagas.

Comunidade e confiança

É esta relação de confiança que a comunidade emprega nos seus habitantes que faz dela uma fortaleza – para o bem e para o mal. Empilhadas umas sobre as outras, as casas têm pouca privacidade. Quase sempre é preciso cruzar a porta do seu vizinho para chegar em casa. Encomendas e correspondências ficam nos locais com acesso mais fácil. É comum ver caixas de madeira penduradas em pontos próximos às avenidas. Olhando mais de perto, descubro que são mailboxes comunitárias, onde os carteiros depositam as correspondências dos moradores próximos. De tempo em tempo, cabe a eles checar a caixa em busca de algo para si.

Paramos mais uma vez. Anunciada a última parada da Rocinha: o Caminho do Boiadeiro. O mercado informal da favela reúne quase tudo: barracas de verduras, frutas e temperos estão ao lado de outras que vendem roupas, produtos de limpeza e carne, sem qualquer tipo de refrigeração. Ali, frangos vivos são vendidos e abatidos na hora – sem qualquer cerimônia faz-se o sangue escorrer.

Descemos as duas ruas do mercado e terminamos o passeio em uma das barracas mais concorridas. Os tradicionais caldo de cana e pastel vão nos alimentar por mais algumas horas.

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro

Caixas de correspondências: a vida em comunidade.

Favela da Rocinha, Rio de Janeiro

No Caminho do Boiadeiro encontra-se tudo.

Frangos vivos são abatidos nas calçadas, na presença dos clientes.

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

8 Comentários

  1. Avatar

    Muito bacana essa experiencia, mostra uma realidade diferente das apregoadas na tv, de um Rio de Janeiro que as pessoas nao querem ver, mas pelo contrario, esse e um Rio de Janeiro que esta dando seus primeiros passos no exercício da cidadania nos núcleos sociais outrora marginalizados. Parabéns pela matéria…

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