Como é fazer o Caminho do Sol

0

Atualizado em 7 de novembro de 2017

Fazer o Caminho do Sol, para muitos, é treinar para o consagrado Caminho de Santiago de Compostela. Silvia Prevideli, jornalista de São Paulo, encarou esse desafio em julho deste ano, e o  relato desta aventura de reflexão você lê agora.

O Caminho do Sol é um percurso de caminhada que nasceu com objetivo de oferecer aos amantes da atividade, um ambiente agradável, passando em sua quase totalidade, somente por áreas rurais, buscando a introspecção e o despojamento material.

Como é fazer o Caminho do Sol

Quase todo o percurso é em áreas rurais.

Antes de cair na estrada, é importante saber alguns detalhes sobre este trajeto. Trata-se de uma extensão única de 241 quilômetros que devem ser percorridos em onze dias.

As paradas no meio do caminho têm como objetivo descansar, comer, dormir e qualquer outra necessidade básica, mas o percurso é sempre o mesmo: sair de Santana do Parnaíba e chegar a Águas Claras de São Pedro.

Silvia conta que o trajeto não é exatamente turístico, por isso as opções de hospedagens são poucas e não estão disponíveis a qualquer hora ou dia. Durante a caminhada, você fica em pousadas, fazendas, albergues e casas de família.

É possível fazer o Caminho do Sol em qualquer época do ano, mas o mais aconselhado é seguir o cronograma do evento, para ter um número maior de pessoas juntas e apoio em qualquer dificuldade, inclusive com imprevistos da natureza como a chuva e a estiagem.

Como é fazer o Caminho do Sol

As hospedagens são fazendas, pousadas e casas de família.

Como foi fazer o Caminho do Sol

“Eu escolhi fazer o Caminho do Sol em julho deste ano. Percorri 219 quilômetros, um pouco menos do que o previsto, pois parei um dia para recuperar as energias. Saímos em um grupo de 12, mas no final éramos apenas nove peregrinos”, conta Silvia.

Ela andou por três dias, fazendo 52 quilômetros e parou no quarto dia, pegando um carro para encontrar aqueles que continuaram caminhando.

“A minha bota, já amaciada, me mostrou que não era tão adequada, o quanto pensei, para longos trechos. No quinto dia retomei a caminhada com o grupo”, lembra.

Como é fazer o Caminho do Sol

O caminho é cheio de belezas.

Atenção aos equipamentos

Seguir as recomendações à risca é que aumenta as chances de uma peregrinação dar certo. É muito importante ouvir os organizadores e quem já fez o caminho. Silvia destacou a importância de fazer um planejamento e o test drive do equipamento.

“A bota que eu levei, por exemplo, já tinha dez anos e era do número que eu calço mesmo. Era adequada para caminhadas em diferentes trechos, mas caminhadas curtas. Comecei a pisar errado no meio do caminho e isso causou uma dor na tíbia e no joelho. O descanso no quarto dia foi muito importante e consegui pegar uma papete emprestada de uma companheira, permitindo que eu chegasse ao final do caminho”.

Como é fazer o Caminho do Sol

É preciso ter os equipamentos certos para passar por aqui.

Enxoval do peregrino

O chamado enxoval do peregrino deve ser composto pelos itens essenciais e os secundários, que também ajudam muito a chegar à reta final. Entre os itens essenciais estão: calçados adequados (bota e papete são os melhores, mas há quem faça com tênis ou chinelo), a mochila, que deve obedecer algumas regras como ser modelo trekking e ter entre 45 e 65 litros, e as meias, que têm um modelo indicado para trilha, evitando bolhas.

A lista complementar inclui as roupas, que variam de acordo com a estação do ano, remédios, cajado, lanterna, fio de nylon para montar o varal, alfinete de segurança, entre outros objetos de acampamento. O kit de sobrevivência básico deve atender principalmente a questão das bolhas, e contar micropore, vaselina e pomada cicatrizante.

Como é fazer o Caminho do Sol

As belezas do caminho.

Diário de bordo

“Tudo começou na noite do dia quatro de julho, em uma pousada, em Santana de Parnaíba”, conta Silvia. O grupo foi apresentado, receberam orientações do idealizador do projeto, José Palma, um peregrino de carteirinha.

“A noite estava muito fria, parecia o prenúncio de que a viagem não seria fácil. Na manhã seguinte, o fio continuou, mas logo que o sol apareceu as coisas foram melhorando. Em onze dias, passamos por doze cidades com diferentes temperaturas e paisagens. O terreno também variava muito, de asfalto, a terra batida, areia e pedregulhos. O percurso alternava entre retas, descidas e subidas, mas sempre com carros, tratores, caminhões, além de plantações, pontes, rios, muita cana e vacas”, conta Silvia.

O grupo tinha gente de todas as idades. A pessoa mais velha tinha 68 anos e a mais nova, 18. Todos eram de São Paulo, tanto da capital quanto do interior.

“Nossa rotina se resumia em acordar por volta das cinco da manhã, e sair às sete. Como éramos muitos, os preparativos iniciais nos impediam de sair mais rápido. Depois de andar e andar – e andar mais um pouco – chegávamos às pousadas por volta de uma da tarde. No caminho, comprávamos água e outras coisas em alguns estabelecimentos, e sempre aproveitávamos para usar o banheiro”, explica.

Como é fazer o Caminho do Sol

Acordar bem cedo é rotina para os peregrinos.

Nessas paradas é que os peregrinos começam a preencher o passaporte com os famosos carimbos do Caminho do Sol.

“As vezes éramos recebidos por pequenos oásis, montados pelos voluntários do Caminho do Sol. Estes anjos, geralmente peregrinos que já fizeram o caminho, montavam um banquete para nós em algum ponto do trajeto. Chegando às pousadas, cumpríamos um ritual: tirar os micropores do pé, lavar e estender as roupas, tomar banho, almoçar, consultar o guia impresso para se preparar para o dia seguinte e resolver assuntos pessoas. Muitos de nós ligávamos para casa, olhávamos o email e as redes sociais. Depois disso, era partir para o jantar, acertar a conta com a pousada e dormir à 21h, garantindo um repouso de pelo menos oito horas”.

“Ao fim do Caminho do Sol, estávamos tão animados com a chegada que, arrisco dizer, o trecho final foi o mais fácil. Fomos recebidos por muitos familiares e muitos aplausos, comemora a jornalista.

José Palma, o idealizador do projeto, recebe os peregrinos com os documentos oficiais, em um local bem significativo: o altar de Santiago, localizado em um Horto Florestal.

A cerimônia oficial de entrega do Aras Solis, documento de conclusão do percurso, foi regada de choro e pronunciamentos especiais. Silvia conta que, depois disso, todos foram beber uma cerveja e almoçar juntos pela última vez.

Como é fazer o Caminho do Sol

 

Por que fazer o Caminho do Sol

Os motivos podem ser diversos, e cada peregrino se coloca nessa situação por diferentes razões, para remover diferentes pedras do caminho.

“A minha dor era da perda. Minha mãe faleceu em janeiro deste ano e resolvi que precisava de esforço físico para vencer minhas tristezas”, conta Silvia.

O ato de peregrinar é um convite à reflexão, seja pela solidão nas estradas, pelas dores no corpo, influência dos companheiros pelos caminhos, distância de casa, ou qualquer um dos muitos momentos que elevam o pensamento e a alma neste trajeto.

“Eu já tinha ouvido falar dos caminhos de peregrinação no Brasil e resolvi pesquisar mais. Era uma atividade que eu poderia ficar sozinha, mas não o tempo todo, ficaria sem muitos luxos ou qualquer complicação que me fizesse desistir. Escolhi este, o Caminho do Sol, pois era o mais curto e não exige tanto esforço físico, quando comparado aos outros”, explica.

Como é fazer o Caminho do Sol

Silvia ressalta que, seu balanço final foi: serenidade, paz, alegria e acolhimento, sendo este último, o mais esperado.

“Em algum momento da caminhada, alguém do meu grupo disse que nós pegamos mais do que deixamos, e é verdade. Eu ainda acrescento a palavra benção. São muitas. No próprio caminho, houve equilíbrio da temperatura, não tivemos um acidente sequer, nenhuma queda, picada de inseto ou mordida de cachorro”, comemora a peregrina.

Encontre resorts com preços promocionais.

“Se eu penso em voltar? Voltar, propriamente dito, não, embora tenha gostado muito. Mas, fiquei com muita vontade de fazer outras peregrinações”, diz Silvia.

Clique e veja quanto custa fazer o Caminho do Sol

Outros caminhos no Brasil        

Para quem se inspirou na história de superação da Silvia, há várias opções de caminhadas de peregrinação no Brasil. A mais curta, tem 100 quilômetros e dura quatro dias. A mais longa, dura 37 dias e percorre 1.000 quilômetros. Veja as informações abaixo:

  1. Caminho Religioso da Estrada Real, de Minas Gerais a São Paulo, percurso de mil quilômetros em 37 dias.
  2. Caminho da Luz,  Minas Gerais, percurso de 200 quilômetros em sete dias.
  3. Caminho da Fé, São        Paulo, percurso de 497 quilômetros em 19 dias.
  4. Caminho das Missões, Rio Grande do Sul, percurso de 325 quilômetros em três a 18 dias.
  5. Passos de Anchieta, Espírito Santo, percurso de 100 quilômetros em  quatro dias.
  6. Passo dos Jesuítas,  São Paulo, percurso de 370 quilômetros em média 16 dias.
  7. Rota da Luz, São Paulo, percurso de 201 quilômetros em sete dias.
  8. Rota Franciscana, São Paulo, percurso de 818 quilômetros em dez a 15 dias.
CONPARTILHE COM SEUS AMIGOS

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

Escreva um comentário

Inline
Inline