A vida em Cuba e seu contexto político

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Atualizado em 31 de maio de 2017

Entender a vida em Cuba não será tão fácil quanto você imagina. O país, que viveu sob o domínio espanhol durante séculos, foi um dos maiores produtores de cana-de-açúcar do mundo. Em sua maioria, o trabalho era desenvolvido por escravos, que chegavam sem parar aos portos do país: só para você ter uma ideia, em 1840, já existiam mais de 400 mil africanos em Cuba. Isso mudou, para sempre, as características do país.

Os conflitos envolvendo Cuba e Estados Unidos não são recentes. O açúcar cubano era tão valorizado que os norte-americanos tentaram, por duas vezes, comprar a ilha da Espanha. Mais tarde, depois da Guerra pela Independência, que começou em 1868 e durou dez anos, começaram as manifestações cubanas para que a ilha fosse anexada aos Estados Unidos.

A vida em Cuba e seu contexto político

Bandeiras norte-americanas são vistas em várias partes de Cuba.

Entretanto, José Martí, o líder da independência, depois de viver por 15 anos em Nova Iorque, estava convicto de que essa não seria a melhor saída para Cuba. Então, com outros companheiros, iniciou os embates que resultaram na libertação do país em 20 de maio de 1902.

Antes, os Estados Unidos já haviam tentado comprar a ilha pela terceira vez, depois que uma de suas embarcações explodiu misteriosamente no porto de Havana.

Novas regras

Em 1900, quando era governada por um interventor norte-americano, como previa o tratado de Paris, assinado por Estados Unidos e Espanha, Cuba escreveu sua primeira constituição. Na verdade, isso não foi bem assim. Naquela época, as tropas americanas ocupavam várias cidades cubanas e o governo estadunidense tinha grande influência sobre a ilha. Foi assim que eles incluíram na Carta Magna uma cláusula que garantia aos Estados Unidos o direito de intervir militarmente em Cuba.

Sem muita escolha, Cuba aceitou as novas regras e, logo depois, em 1903, os Estados Unidos tomaram a base naval de Guantánamo. Onde, ainda hoje, mantém uma cadeia para presos acusados de terrorismo.

Desde sua abertura, já passaram pela polêmica prisão de Guantánamo mais de 750 prisioneiros sem acusação formal, sem processo constituído e, portanto, sem direito de defesa e julgamento.

Corrupção e revolução

Depois que se tornou independente, Cuba passou a ser governada por uma série de presidentes envolvidos em casos de corrupção. Com uma ou outra exceção, todos esses governos foram muito prejudiciais para o país que viu, aos poucos, crescer em sua população o desejo por mudança.

Depois do golpe de estado aplicado por Fulgêncio Batista, em 1933, esse sentimento foi mais fortemente ancorado no Movimento 26 de Julho, liderado por Fidel Castro. Derrotados em sua primeira investida, o grupo paramilitar persistiu pelo interior do país.

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O mural que homenageia um dos mais famosos revolucionários,

Nessa época, o médico argentino Ernesto Guevara, que ficou mais conhecido como Che Guevara, se uniu ao grupo que tinha, ainda, Raúl Castro, irmão de Fidel e atual presidente cubano.

Depois de muitos conflitos contra o exército de Batista, a revolução triunfou em 1º de janeiro de 1959, com a tomada de Santiago de Cuba e de Havana, no dia seguinte.

Governo revolucionário

Em seus primeiros anos no poder, Fidel Castro sancionou leis reduzindo o valor dos alugueis, da eletricidade e de outros serviços básicos. Aboliu a discriminação racial e estatizou grandes propriedades rurais que, em sua maioria, pertenciam a empresas americanas.

As principais áreas de investimento eram a saúde e a educação, que, ainda hoje, são modelo para o resto do mundo: Cuba tem uma das melhores taxas de alfabetização do planeta e o serviço de saúde é universalidade e de qualidade – embora os salários dos profissionais seja baixo.

O desemprego é baixíssimo, mas aqui se sobrevive com pouco e produtos essenciais para a uma vida digna, como papel higiênico e sabonete, são racionados. Muitos profissionais, inclusive, precisam fazer uma segunda jornada para garantir uma renda extra.

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O diário de Che que foi distribuído à população em 1968.

Mesmo sendo claramente esquerdista, Fidel Castro nunca foi comunista. A opção pelo regime dos soviéticos só foi feita bem depois dele chegar ao poder e, para muitos, foi resultado da falta de opção: com os Estados Unidos apontando para medidas contrárias ao país, Fidel acabou se aproximando da ex-União Soviética que, naquela época, travava uma guerra ideológica com o mundo capitalista.

Como contrapartida, Cuba recebeu investimentos e apoio militar dos soviéticos. Por outro lado, em janeiro de 1961, os Estados Unidos cortaram relações diplomáticas com a ilha e passaram a proibir viagens de americanos a Cuba.

Depois de uma nova e frustrada tentativa de tomar a ilha, o governo americano declarou embargo total ao país de Fidel. Era o começo do isolamento que só deu sinais reais de enfraquecimento com o presidente Barak Obama, décadas mais tarde.

Racionamento e crise

Há mais de meio século, Cuba é governada pelo Partido Comunista, liderado por Raúl e Fidel Castro sob um sistema rígido que impede, na prática, a eleição de candidatos opositores.

O governo de Fidel Castro foi marcado por questões polêmicas e de agressão aos direitos humanos. Entre elas, práticas contrárias à liberdade de expressão e a perseguição de homossexuais. Fato, último, reconhecido pelo ditador em entrevista à imprensa internacional.

Símbolo do racionamento de alimentos no país, a caderneta que dá acesso a toda população a itens básicos, como pão, leite, ovos e até cigarro, ainda gera polêmica até dentro do próprio governo: gasta-se muito com o programa e ele ainda é insuficiente. Entretanto, extinguir a livreta de uma hora para a outra ainda é impossível, visto que muitos dependem dessa fonte de alimentos.

Muitos cubanos, que foram afetados diretamente pelo novo modelo governamental, deixaram o país. Entre 1959 e 1970, mais de 500 mil fugiram de Cuba. Esse era um sinal de que algo estranho acontecia nesta ilha caribenha.

Com o passar dos anos, longe do mercado americano e com a crise no mundo socialista, Cuba se viu isolada e distante da globalização. Afetada por racionamentos e blecautes programados, os cubanos começaram a experimentar o revés no jogo.

Uma nova onde de imigrantes deixou o país. As cenas de embarcações improvisadas cruzando o Estreito da Flórida rumo a terras americanas corre o mundo e muitos morrem no caminho.

 A vida em Cuba hoje

Nos últimos anos, principalmente depois que Fidel Castro decidiu não mais se candidatar à presidência, o país tem experimentado certa evolução em sua política externa. Recentemente, os Estados Unidos decidiram restabelecer o diálogo com o país reabrindo sua embaixada em Havana, mas as sanções do embargo econômico permaneceram. Infelizmente, as negociações não avançaram depois da eleição do magnata Donald Trump para a Casa Branca.

A vida em Cuba e seu contexto político

Cena típica de Havana Vieja.

Hoje, a vida em Cuba se desenvolve a passos lentos. Os salários são insuficientes, produtos necessários para a vida cotidiana são controlados, a maioria das instituições é comandada pelo governo e a corrupção continua sendo varrida para debaixo do tapete. Não há eleições diretas para presidente e a imprensa continua sendo censurada.

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SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

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