A fortaleza de Terezín e a cidade quase perfeita

0

Atualizado em 30 de junho de 2017

Construída para ser uma imponente fortaleza cercada por muralhas e protegida por um complexo sistema de túneis e trincheiras, no final das contas Terezín nunca protegeu ninguém. Pelo contrário, seus muros serviram de testemunha para a tortura, para o descaso e para o assassinato de milhares de inocentes durante a Segunda Guerra Mundial.

CLIQUE E SAIBA MAIS SOBRE A HISTÓRIA DE TEREZÍN

Hoje, quem chega a Terezín vem cumprir o roteiro que tem como foco um dos principais sítios históricos da Segunda Guerra Mundial da República Tcheca. Como a visita é longa e cheia de detalhes, eu dividi o texto em duas partes.

Em O campo de concentração de Terezín, eu conto como é conhecer o pequeno forte, que, em 1940, foi ocupado pelos nazistas e transformado em prisão. Neste artigo, eu relato como era a vida dentro da fortaleza principal, onde funcionou o gueto que reuniu em, sua maioria, judeus de origem tcheca.

O campo de concentração de Terezín

A beleza dos jardins de Terezín esconde um passado de sofrimento.

O campo de concentração de Terezín

Um dos barracões que não foram reformados desde o período da Guerra.

A cidade ocupada

Apenas um ano depois da ocupação da República Tcheca pelos nazistas – na época, Tchecoslováquia –, todos os moradores de Terezín foram expulsos para que os barracões onde moravam dessem lugar a dezenas de milhares de judeus que, agora, eram obrigados a viver em um gueto, distante da sociedade.

Com bastante espaço e uma infraestrutura bem diferente dos demais campos de concentração, Terezín logo virou símbolo da propaganda de Hitler. Naquela época, a cidade chegou a ser divulgada como um lugar de descanso, onde idosos e doentes poderiam recuperar suas forças em paz. Mas o que o mundo ainda não sabia, é que este era um lugar de confinamento da raça considerada inferior e que, por isso, deveria ser eliminada.

CLIQUE E SAIBA MAIS SOBRE A IDEOLOGIA NAZISTA

Quando entrar em Terezín, você vai perceber que, de fato, este é um lugar diferente. Aqui, escolas funcionavam normalmente, os habitantes podiam ler os jornais todas as manhãs, e até peças teatrais e concertos musicais ocupavam o palco do antigo teatro. Entretanto, tudo isso não era o resultado do entusiasmo dos internos, mas uma marcha programada que pretendia enganar as multidões que chegavam sem parar.

O campo de concentração de Terezín

As ruas planejadas e os barracões, hoje reformados.

O campo de concentração de Terezín

Um exemplo de como a cidade era descrita na propaganda nazista.

Originalmente, Terezín não foi um campo de extermínio, mas um campo de passagem, onde os prisioneiros aguardavam a hora de serem enviados ao encontro da morte. Entretanto, com o avanço da guerra, os oficiais nazistas começaram a matar mais e mais pessoas, com o objetivo de eliminar o maior número de judeus possível.

Museu do Gueto e os barracões

Hoje, Terezín é um grande memorial que lembra as vítimas da perseguição nazista, mas é também o lar de quase duas mil pessoas que amam e cuidam dessa herança tão sofrida. Você vai entender melhor essa inquebrável relação de pertencimento quando visitar o Museu do Gueto e o barracões de Magdeburg.

O prédio onde funciona o Museu abrigou uma escola para meninos judeus órfãos de 10 a 15 anos. Com tanto sofrimento, os professores deste educandário estimulavam que seus alunos se expressassem por meio de poesias e de desenhos. Frantisek Bass foi um dos meninos que viveram aqui. Antes de morrer em Auschwitz, na Polônia, em 1944, ele escreveu o seguinte poema, que transcrevo em tradução livre:

Um pequeno jardim,
Perfumado e cheio de rosas.
O caminho é estreito
E um menininho caminha por ele.

Um menininho, um doce menino,
Como esses pequenos botões.
Quando as flores se abrirem,
O menininho não estará mais aqui.

O campo de concentração de Terezín

Fachada do Museu do Gueto.

O campo de concentração de Terezín

Um dos meninos vítimas de Terezín.

O campo de concentração de Terezín

No Museu, há um painel com o nome de todas os mortos de Terezín.

No conjunto de barracões de Magdeburg, a gente vê e entende um pouco como era a vida no gueto. Aqui, réplicas dos dormitórios mostram alguns detalhes daquele tempo. Objetos, roupas e imagens também nos transportam para aqueles dias.

O campo de concentração de Terezín

Replica dos dormitórios de Terezín.

O campo de concentração de Terezín

Documentos de alguns judeus que foram extraditados e mortos.

O campo de concentração de Terezín

O espaço de visitantes do Magdeburg.

Outro lugar muito especial é o quarto de oração que funcionava no gueto. Nesse pequeno ambiente com pinturas judaicas, os moradores podiam cumprir suas obrigações religiosas e, assim, se sentirem mais vivos.

No andar de cima da rústica sinagoga, eu visitei uma casa onde viveram alguns prisioneiros. Tudo está como se fosse nos dias da Segunda Guerra Mundial, e você poderá entrar e ver isso de perto.

O campo de concentração de Terezín

O quarto de oração que funcionou durante o tempo do gueto.

O campo de concentração de Terezín

A pintura com símbolos judaicos.

O campo de concentração de Terezín

A estrela amarela que os judeus eram obrigados a usar.

O campo de concentração de Terezín

Lembranças de Yerezín.

O campo de concentração de Terezín

Uma humilde casa dentro do gueto.

O doloroso crematório

Tarezín, de forma geral, é um ambiente de profunda tristeza, mas visitar alguns lugares foi muito mais doloroso. O crematório é um deles.

Embora esse não fosse um lugar de extermínio, como eu já mencionei, o número de mortos aqui dentro era muito grande. Para você ter uma ideia, em 1942, a quantidade de pessoas morrendo dentro do gueto era tão alta, que foi preciso construir um crematório que chegava a queimar 200 corpos por dia.

Grande parte dessas vítimas não resistia às péssimas condições de vida aqui dentro. Doentes, fracos, mal alimentados e sem esperança de um futuro melhor, muitos encontraram a morte dentro dos muros de Terazín. Dos cerca de 140 mil judeus transferidos para cá, aproximadamente 33 mil morreram antes de serem levados para outros campos de concentração.

O campo de concentração de Terezín

O forno que queimava os corpos inocentes.

O campo de concentração de Terezín

O carrinho que empurrava os corpos para dentro da fornalha.

O campo de concentração de Terezín

O crematório.

No crematório, quatro fornos funcionavam a todo o vapor para dar conta do recado. Um engenhoso sistema de ventilação acelerava o processo aumentando a temperatura. A fumaça era sugada e dissipada pelas chaminés, enquanto isso, corpos se acumulavam para serem empurrados forno adentro.

Em uma fria sala ao lado do crematório funcionava o centro de autópsias, onde casos mais específicos eram estudados, quase sempre por prisioneiros médicos obrigados a cumprir essa dolorosa função.

O campo de concentração de Terezín

A fria sala de autópsia.

Um futuro de cinzas

Depois que os corpos eram queimados, as cinzas eram recolhidas, encaixotadas e levadas para o columbário, onde ficavam guardadas. Porém, nos últimos anos da guerra, devido grande número de mortos, esse procedimento foi suspenso e as cinzas passaram a ser lançadas no Rio Ohře. Essa tática também foi usada pelos nazistas para não deixar mais evidências das atrocidades cometidas em Terezín.

O campo de concentração de Terezín

As portas do columbário.

O campo de concentração de Terezín

Um exemplo de como eram guardadas as cinzas no gueto.

No caminho entre o gueto e o columbário, há uma placa identificando o caminho do trem que trazia os prisioneiros de suas cidades até aqui. Por um instante, parei e refleti no que aqueles seres humanos pensavam ao desembarcar em um lugar que jamais tinham ouvido falar antes. Como estavam seus sonhos, seus planos de vida? Como essa gente faria para reconstruir sua história? Essas e muitas outras perguntas talvez jamais sejam respondidas.

A vida em Terezín era uma surpresa para todos, e o que eles mais queriam era que os dias aqui fossem breves para que pudessem voltar para sua realidade, por mais simples que ela fosse. Infelizmente, poucos escaparam da morte depois que cruzaram as muralhas dessa cidade quase perfeita.

O campo de concentração de Terezín

A placa que marca o caminho do trem.

O campo de concentração de Terezín

O cemitério judeu.

Planeje sua visita ao campo de concentração de Terezín

Quanto custa | A entrada para o campo de concentração de Terezín, que inclui o pequeno forte e todas as atrações da fortaleza principal, custa CZK 215. Estudantes pagam CZK 165.

Quando ir | Você pode visitar o campo de concentração de Terezín durante todo o ano, exceto nos dias 24 a 26 de dezembro e 1º de janeiro. O pequeno forte abre das 8h às 18h, de abril a outubro. Entre novembro e março a visita se encerra às 16h30. O Museu do Gueto, o columbário, o crematório, os barracões de Magdeburg e o quarto de oração abrem de 9h às 18h. Nos meses de novembro a março, eles fecham meia hora mais cedo.

Eu considero os meses de abril a setembro a melhor época para visitar a República Tcheca. Nesse período, as temperaturas são mais agradáveis, sem frio ou calor extremo. Mas se você quer ver neve, é melhor programar sua viagem para os meses de novembro a março, quando os termômetros estão sempre perto de zero.

Quem leva |Sem dúvida, estar acompanhado de um guia local faz toda a diferença nessa visita. Por isso, eu sugiro que você contrate um profissional para lhe explicar tudo o que vai ver. Uma boa opção é comprar um pacote para este passeio, incluindo também o transporte. Veja algumas opções aqui.

O acompanhamento de um guia é essencial para compreender Terezín.

O acompanhamento de um guia é essencial para compreender Terezín.

Como chegar | O campo de concentração de Terezín fica a 60 quilômetros de Praga. Para chegar aqui de ônibus, você pode pegar um dos veículos que partem da estação rodoviária Florenc. As partidas acontecem praticamente a cada. Para retornar a Praga, você pode pegar o mesmo veículo no itinerário contrário. As partidas também acontecem a cada hora, até às 17h. A passagem custa em torno de EUR 4 e você pode consultar os horários e comprar seu bilhete aqui.

O Aeroporto Internacional Praga Ruzyně (PRG) fica a 20 quilômetros do centro, e há várias linhas de ônibus que nos levam até ele. Algumas são a 100, 119, 191, 319 e 510. O Uber funciona bem na cidade e, como sempre, tem preços melhores que os táxis.

Onde ficar | Praga tem ótimas opções de hotéis e hostels. Eu passei pela cidade duas vezes e tive experiências de hospedagem bem diferentes, mas super agradáveis. Na primeira vez, eu fiquei no Bohemia Apartments, um apartamento bem espaçoso perto de tudo. Eu também me hospedei no Time Traveler, um hostel excelente com quartos novos, arejados e muito bem organizado. Você encontra outras opções de hospedagem aqui.

Visto e documentos | Brasileiros não precisam de visto para entrar e permanecer na República Tcheca por até 90 dias. Entretanto, será preciso apresentar seu passaporte dentro da validade. É muito importante saber que o seguro viagem é obrigatório, e que, sem ele, você pode ser impedido de entrar o país. Veja como comprar o seguro viagem com desconto.

Para ler | Quem quiser  saber mais sobre as histórias que se passaram em Terezín, o livro A mala de Hana conta uma intrigante história que une as memórias de Hana, uma criança tcheca que viveu no campo de concentração,  e um grupo de crianças em Tóquio, no Japão.

CONPARTILHE COM SEUS AMIGOS

SOBRE O AUTOR

Altier Moulin

Sou um jornalista que gosta de contar histórias e de extrair do cotidiano um valor que muitos não percebem. Desde menino, meu desejo era viajar pelo mundo. Já adulto, descobri que isso não era apenas um sentimento, mas um propósito de vida.

Escreva um comentário

Inline
Inline